Mostra que mapeia novos nomes é aberta hoje no Itaú Cultural

Crise urbana e intimismo marcam obras do Rumos
A percepção da crise urbana, o questionamento da representação e do status da arte e a valorização de poéticas íntimas são três dos vários caminhos que o Rumos Artes Visuais 2005-2006 trilha a partir de hoje, quando o projeto que mapeia artistas emergentes por todo o Brasil tem sua mostra aberta, para convidados, no Itaú Cultural.


"Essa exposição tem um caráter panorâmico, não pretende ter um partido curatorial forte. É a diversidade que a marca", afirma Luisa Duarte, uma das cinco curadoras -com coordenação de arte Aracy Amaral- que fez a escolha de 78 nomes para espelhar a arte contemporânea no Brasil. Além de Duarte, Lisette Lagnado -curadora da próxima Bienal de São Paulo, que começa em outubro-, Marisa Mokarzel e Cristiana Tejo assinam a seleção.

No entanto, apesar do caráter amplo da exposição, é possível costurar alguns diálogos entre obras e perceber temáticas similares. Assim, o bloco que se apropria de sobras, restos e lixo, reinventando-os em trabalhos críticos, mas que muitas vezes têm preocupações construtivas -as construções do paraense Marcone Moreira são exemplo disso- ganha uma leitura mais evidente.

As formas escultóricas do mineiro Fabrício Carvalho, os "pinballs" do paulista Giulianno Montijo e a figura humana sufocada do paranaense Sebastião Marcos se inserem nesse segmento. "Na mostra, há visões periféricas, das margens das cidades, que se retroalimentam nas bordas da sociedade", avalia Amaral.

Trabalhos políticos com esse tipo de crítica pontuam a mostra, como o oratório no qual uma garrafa de coca-cola tem status de santo, do mato-grossense Evandro Prado, e o ambiente asséptico e impessoal de um escritório montado pelo pernambucano Bruno Monteiro. As reapropriações de anúncios imobiliários de Rodrigo Matheus e Bruno Faria podem se filiar à tal perspectiva.

Urbe em crise

Também as reflexões sobre o conflagrado meio urbano e suas imagens perpassam vários espaços do Rumos. A fotografia é uma das linguagens mais utilizadas, como as do paulista Marcelo Canella e as da catarinense Suzana Pabst, que estão próximas e propiciam a leitura mútua.
E até trabalhos que podem ser considerados díspares encontram afinidade, como a ausência da figura humana nas precisas fotografias de pontos de ônibus de beira de estrada do mineiro Pedro Motta e nas reproduções dos desoladores ambientes de videogame de Maíra Neves.
A incomunicabilidade é explorada nos vídeos das paulistas Vera Uberti e de Naiah Mendonça. "Precisa, Naiah não tem medo de ser kitsch", diz Duarte.

Suporte por vezes desprezado, a pintura encontra abrigo nas inspiradas telas da carioca Lucia Laguna, 64, que começou a produzir já aposentada -ela se inspira nas ligações conturbadas entre as linhas Vermelha e Amarela do Rio- e nos construtivos trabalhos do paraense Gabriel, 14.
Não faltam obras sobre a crise da representação, como a do paulista Paulo Almeida, e belas poéticas intimistas, como as fotografias da paulista Lia Chaia e as reapropriações de álbuns familiares da paulista Gabriela Piernikarz.


Mario Gioia, Da reportagem local
São Paulo, terça-feira, 21 de março de 2006
Jornal Folha de São Paulo – Caderno Folha Acontece