Exposição provoca ira de católicos

A exposição "Habemus Cocam", do artista Evandro Prado, em exibição no Museu de Arte Contemporânea (Marco) está provocando a ira de católicos e de autoridades. Um abaixo-assinado está circulando entre as igrejas católicas e no gabinete do vereador de Campo Grande, Paulo Siufi (PRTB), pedindo que a exposição seja retirada do museu – a alegação é de que tais obras estariam insultando imagens sagradas.

A movimentação contrária à mostra começou no início da semana passada, quando um católico procurou o vereador munido de fotos da exposição. "Esta pessoa ficou indignada e foi me procurar para que eu, como legislador, tomasse posição sobre o assunto. Católico que sou, fiz a Moção de Repúdio (na última terça-feira) e estou apoiando o abaixo-assinado", disse ontem ao Correio do Estado.

Com 3 mil assinaturas contabilizadas (dados de sábado), o vereador informou que a lista continua circulando nesta semana. "Até católicos do interior estão pedindo o material para assinar", acrescenta.

Outra ação do grupo católico e do vereador é acionar a Justiça para que, além da retirada da mostra do museu, o artista também elabore nota pública, com pedido de desculpas. "Seria uma forma de retratação", explica.

Abstração

Em exibição desde o dia 11 de maio, a mostra "Habemus Cocam", tem o dia 30 de junho como data prevista de encerramento e já conta com outro local para exposição, a Casa de Cultura da América do Sul, em Brasília.

Na série, o artista utiliza imagens da Coca-Cola, Jesus Cristo, Nossa Senhora Aparecida e do Papa João Paulo 2º, entre outros, para fazer reflexões sobre o consumismo exacerbado da sociedade contemporânea. "Utilizo essas imagens para simbolizar o consumismo como religião. A mostra não é um ataque à igreja católica e muito menos à marca de refrigerante, inclusive a série foi inspirada num texto do Frei Beto que fala que existem marcas, produtos que são cultuados como uma religião", explicou Evandro, que já teve obra da mesma série selecionada pelo Rumos Itaú Cultural e, disse temer que "a igreja tente ressuscitar a fogueira, como na Idade Média".

Para a crítica de arte Maria Adélia Menegazzo, estes desentendimentos ocorrem em decorrência da leitura literal das imagens. "O artista está metamorfoseando a estrutura das imagens. As expressões de arte devem ser lidas pelo simbolismo que elas representam, ir além do significado, abstrair", analisou.

Evandro afirmou que não acredita que suas obras serão retiradas do museu; ele vem recebendo apoio da classe artística, como da curadora do Rumos Itaú Cultural (2005-2006), Aracy Amaral.


Michelle Rossi
Campo Grande, MS, 21 de maio de 2006
Jornal Correio do Estado