Mostra polêmica faz aumentar número de visitantes

O número de visitantes no Museu de Arte Contemporânea (Marco) aumentou consideravelmente depois que a mostra em exibição no local, "Habemus Cocam", de Evandro Prado, foi atacada por autoridades e católicos aborrecidos com o conteúdo das obras do artista – na série, são utilizadas imagens sacras e da Coca-Cola, que convidam o espectador a fazer reflexões sobre o consumismo como religião.


Segundo o secretário de Cultura, Sílvio Nucci, tanta polêmica em torno do assunto acabou levando um número bem maior de pessoas ao museu na última semana. "A visitação no Marco aumentou em 5 vezes. Na mostra, o artista tenta fazer uma leitura da realidade, não está criticando a Igreja Católica, mas o ser humano que coloca o consumismo como uma espécie de religião", disse o secretário, que é católico, visitou e gostou da exposição.

Um abaixo assinado que pede o cancelamento da mostra está circulando há 2 semanas em igrejas católicas da cidade e no gabinete do vereador de Campo Grande, Paulo Siufi (PRTB). Cerca de 5 mil pessoas já assinaram a lista. "Vamos continuar com o abaixo-assinado. Também está sendo formada uma comissão de católicos para pedir reunião com o governador e assim expor o nosso repúdio", explicou Siufi, reiterando seu posicionamento contrário às obras do artista no Marco. "Ele (Evandro) não pode vilipendiar a arte sacra daquela maneira. Se ele não quis ofender os católicos, nós nos sentimos ofendidos da mesma forma".

De acordo com a gestora do museu, Maysa Leite de Barros, a exposição permanecerá no local até data estabelecida, 30 de junho. "Não fomos procurados para discutir o assunto e também não foi feito nenhum comunicado oficial para que a exposição seja cancelada", relatou.
Colhendo frutos

A Arquidiocese de Campo Grande divulgou, na última sexta-feira, nota assinada sobre a exposição, na qual o arcebispo Dom Vitório Pavanello escreve que o artista utilizou meios ilícitos para criticar a sociedade consumista. "A própria Igreja desaprova o consumismo. Antes, para não se deixar levar por ele, pede aos seus fiéis o cultivo da parcimônia, da austeridade, do jejum e da abstinência (...)". Ainda no comunicado, o arcebispo lamenta o fato de a Secretaria da Cultura ter cedido espaço para a exposição, "sabendo ferir os sentimentos religiosos de milhares dos seus cidadãos".

Em resposta à nota, o secretário de Cultura explicou que a curadoria do Marco tem autonomia e competência para selecionar as exposições que vão ocupar o espaço. "Não posso atuar como censor e ditar o que deve, ou não, estar no museu", ponderou. Nucci sinalizou interesse em marcar reunião com o arcebispo para discutir o assunto.

Colhendo frutos da controvérsia, o artista Evandro Prado vem sendo procurado pela classe artística, que manifesta solidariedade. "Já recebi apoio da Aracy Amaral, Cristina Tejo, de fora do Estado. Daqui, a equipe do museu, a Maria Adélia Menegazzo, Humberto Espíndola e Lúcia Mont Serrat são alguns nomes que têm apoiado a minha licença poética de manifestar a crítica através da arte", declarou.


Michelle Rossi
Campo Grande, MS, 29 de maio de 2006
Jornal Correio do Estado