O novo fôlego na arte contemporânea sul-mato-grossense - Por Rafael Maldonado

As quatro mostras individuais que abrem a Temporada de Exposições 2006 do MARCO – Museu de Arte Contemporânea de MS - representam o que vou definir como “ensaios e processos de investigação” na a busca de soluções e perspectivas para a arte sul-mato-grossense. Habemus Cocam, de Evandro Prado; A vida não é filme, de Priscilla Paula Pessoa; Últimas Pinturas, de Ovini Rosmarinus trazem discussões através da linguagem da pintura, enquanto que A grande outra cidade, de Alex Maciel, tem a fotografia como meio de expressão.


Devido à ausência de uma consistente articulação do pensamento contemporâneo na produção artística no estado, bem poucos são os esforços lançados na tentativa de conseguir um certo desprendimento da “estagnação criativa” aqui instalada, e que, de certa forma, vem influenciando negativamente o que é produzido. Isso porque, devido à falta de informação e pesquisa, alguns artistas promovem o seu distanciamento das abordagens que a arte propõe na atualidade.

A arte contemporânea permite perceber que todos os caminhos são possíveis quando os conceitos, embutidos na obra, dialogam coerentemente com os recursos utilizados pelos artistas na construção de seus discursos estéticos. “Ser um artista contemporâneo” implica um comprometimento com questões que transcendem o simples ato criativo. Significa ter atitude e pensamento em sintonia com as mutações da própria arte e do mundo.

E é na real situação de caos e transformação desse mundo em que vivemos, que o artista deve buscar encontrar suas respostas e elementos para construir uma obra em sintonia com o tempo presente.

Elementos triviais da vida cotidiana ou assuntos com teor político e social tornaram-se ferramentas imprescindíveis na construção de poéticas universais, assim como percebê-los no contexto das obras é de fundamental importância para o entendimento dos repertórios da arte. Mas, será que estamos mesmo preparados para o que nos é posto como “novo”? Para o que classificamos como a “arte dos nossos dias”?

Talvez o elemento surpresa contido na ação contemporânea seja o ponto de partida para que possamos dar início a um processo de adaptação do nosso “gosto” para arte, de uma certa “abertura” para o inusitado, do enfrentamento e do entendimento daquilo que nos provoca.

A partir dessas discussões, essas quatro exposições apresentam um pouco desses elementos que compõem a cena contemporânea da arte local, cada uma na sua linguagem e especificidade, tratando de assuntos diversos que se entrelaçam, na tentativa de redirecionar os rumos das artes plásticas em Mato Grosso do Sul.

O principal mote que aproxima a obra de Evandro Prado, Priscilla Paula Pessoa, Alex Maciel e Ovini é a idéia e a vontade de mudar as coisas do seu lugar estático, ou seja, em suas investigações eles propõem dar a essas coisas uma nova carga de significação, um novo status. Uma situação que faz referência à atitude da pop art dos anos 60.

O que esses artistas tratam - especificamente Evandro, Priscilla e Alex - dizem respeito à transformação de acontecimentos triviais, oferecendo assim novas maneiras de leitura e significados. Dessa forma eles procuram questionar o próprio valor da obra de arte, reinterpretando conceitos e se aproximando do que o filósofo e crítico de arte norte-americano Arthur Danto chamaria de “A transfiguração do lugar-comum”.

Assim, esses três jovens artistas correspondem ao novo fôlego na arte sul-mato-grossense, sinalizando que nesse interessante início de percurso seguem os mesmos caminhos inovadores que Ovini (1968-2004) também trilhou, de maneira instigante, com uma obra repleta de transgressão e atitude.

Evandro Prado, o principal representante da nova geração de artistas sul-mato-grossenses, apresenta na série de pinturas Habemus Cocam uma interessante relação entre as várias situações de poder do mundo globalizado. O conjunto de pinturas tratado de forma bastante realista imita a visualidade de comunicação da linguagem publicitária, um recurso adotado para reelaborar novas concepções formais através de procedimentos intertextuais.

A marca Coca-Cola, que para o artista representa a força do consumismo globalizado, surge como elemento que dá unidade às suas séries, fazendo variações da marca tradicional e seus anúncios de publicidade, relacionando-os com conhecidos personagens políticos e religiosos. Também faz interlocução com a história da arte na representação de detalhes de obras de artistas como Michelangelo, Dali e Picasso.

Na série sobre a obra Guernica, de Picasso, o paradoxo fica por conta das cenas de caráter dramático que se contrapõem com os bordões de otimismo inscritos nas embalagens dos refrigerantes. A monocromia que cria toda a tensão na pintura de Picasso é então interrompida por uma vibrante cor vermelha que age como fundo da obra. Um contínuo exercício da contradição sempre presente na obra de Evandro.

Outro aspecto nesse conjunto de pinturas é a delicada relação entre ideologias políticas e econômicas. O confronto direto entre comunismo e capitalismo fica explícito nas pinturas que retratam Fidel Castro e Che Guevara com inscrições Cuba Libre, desenhadas da mesma maneira da marca Coca-Cola.

Às vezes suas imagens são capazes de causar certo estranhamento devido à irreverência de sua criatividade. A pintura Habemus Cocam, que dá nome à exposição, retrata uma cena da cerimônia do funeral do Papa João Paulo II, que tem nas mãos uma tradicional garrafa de coca cola. E na pintura Experimente o novo podemos ver a silhueta do Papa Bento XVI, representado através de tonalidades cinzas que imitam a cor prateada da versão light do refrigerante. Como entender a inusitada ligação apresentada nessas obras?

Aí está o interesse na obra de Evandro Prado. Podemos obter inúmeras respostas num vasto campo de significação que nos convida à subversão daquilo que consideramos como “politicamente correto”.

Priscilla Paula Pessoa mostra em sua série de pinturas “A vida não é filme” uma relação entre campos artísticos que se aproximam pelas inúmeras possibilidades de soluções estéticas. Aqui a pintura dialoga com o cinema resgatando a comunicação visual dos cartazes de antigos filmes, adaptando-os aos novos interesses da artista.

Na reprodução das cenas desses cartazes, Priscilla insere novos valores transformando as imagens originais. Como por exemplo, no cartaz do filme Gilda, há a representação de uma suposta Rita Haywort “gorda” fora dos padrões de beleza e sensualidade. Ou também no cartaz do filme O Rei e eu onde se vê uma trivial dona de casa (seria Débora Kerr?) servindo cerveja e aperitivo ao marido (seria Yul Brynner?) que provavelmente assiste a uma partida de futebol pela televisão. Também é divertido ver a respeito do filme Easy Rider a imagem de dois entregadores de pizza com suas motos e capacetes, bem diferente da versão original na interpretação de Peter Fonda e Dennis Hopper. E podemos achar estranho ver a figura de dois travestis ocupando o lugar das atrizes Marilyn Monroe e Jane Russel, no filme Os homens preferem as loiras.

São ironias que justificam a bem humorada reflexão de Priscilla sobre a expectativa (ou ilusão) que as pessoas mantém de poder viver, um dia, as fantasias e os sonhos contidos nos filmes. Dessa forma, nos divertimos com as diferentes possibilidades da artista para personagens, cenas e histórias que ficaram eternizadas universalmente através do cinema.

Alex Maciel, através da manipulação eletrônica de suas fotografias, cria um novo campo visual onde jogos de combinação de imagens são experimentados na organização das idéias do artista.

Na série de fotografias “A grande outra cidade”, título da exposição, Alex apresenta registros urbanos em situações irreais, quase que beirando o absurdo. São cenas reinventadas inicialmente a partir da paisagem arquitetônica de Campo Grande, e, após o acréscimo de outros elementos, podemos perceber concepções intrigantes na relação entre as formas representadas.

Em alguns momentos as imagens ficam fora de foco, completamente embaçadas, dificultando a visualização do que está representado e causando certa vertigem. Como a sensação de um estado de sonolência onde não conseguimos distinguir a autenticidade das coisas, uma espécie de experiência onírica.

As imagens são na sua maioria em branco e preto, o que ajuda a dar um clima misterioso às cenas. Em alguns momentos a cor surge para realçar alguns elementos, contudo, as tonalidades baixas e sem muita vibração não interferem no “clima surreal” das obras. Quase como uma indagação se nossos sonhos são ou não coloridos.

Também é interessante notar a transposição de cenas conhecidas para lugares inusitados, como no caso da obra onde o Cristo Redentor aparece em cima de um prédio em construção. Ou então, podemos questionar a veracidade da cena na qual uma mulher aparece boiando, morta, no lago de um parque que compõe a paisagem bucólica da cidade. Provavelmente uma “Ofélia” dos tempos modernos.

A “grande outra cidade” de Alex Maciel é uma cidade de poucas verdades, onde confundir também é permitido. Um lugar de ambigüidades que remete a Lacan: “digo sempre a verdade: não toda, porque dizê-la toda não se consegue. Dizê-la toda é impossível materialmente: faltam as palavras”. Para a verdade de Alex as imagens soam como mentiras.

Ovini Rosmarinus (Osmar Silva da Cunha) foi o mais irreverente artista sul-mato-grossense. Com atitude despojada, Ovini causava estranhamento por onde passava. Às vezes, usava óculos sem as lentes dizendo que era apenas porque achava que a armação lhe “caía bem”, embora não tivesse nenhum problema de visão. Sempre tinha um discurso coerente para apresentar suas convicções artísticas e para justificar toda sua ousadia.

Seu trabalho sempre foi o reflexo de sua vida. As dificuldades nunca o impossibilitaram produzir, aliás, foram elas que o fizeram buscar novas soluções para desenvolver a sua arte. Pintava sobre papelão, reaproveitava sucatas, costurava tecidos de guarda-chuvas velhos para confeccionar suas “telas” e conseguia surpreender toda vez que apresentava uma nova série de trabalhos.

Suas últimas pinturas, reunidas nesta exposição, mostram um artista maduro e mais consciente no fazer. O geometrismo aparece de maneira diluída em algumas obras. As cores são sóbrias, embora, em alguns momentos, até podemos perceber certa alegria em seu ato de colorir. Nessas pinturas há a recorrência de linhas retas e curvas formando o corpo da obra, numa estrutura onde a repetição cria contrapontos para nos passar uma agradável noção de ritmo e equilíbrio.

Ovini abusava de forma expressiva da sua liberdade criativa, era um artista descomprometido, livre, sem medos e sem amarras. Sua obra é o retrato disso, ela foi a grande resposta de um artista que ousou, que experimentou e buscou na superação das dificuldades a motivação para produzir uma arte consistente.


Rafael Maldonado
Curador do Museu de Arte Contemporânea de MS
abril de 2006

Texto das exposições da 'Temporada de Exposições 2006" do Museu de Arte Contemporânea de MS.