Arte, fé e refrigerantes... - Por Eluiza Bortolotto Ghizzi e Richard Perassi

A relação entre a arte e as instituições sociais ou culturais nunca foi tranqüila. As expressões artísticas que foram e são incorporadas à cultura, no momento de seu advento, geralmente, criticaram ou contestaram os valores culturais vigentes e, assim, renovaram todo processo cultural. A cultura avança nas contradições e se estabelece como memória de acordos e conflitos.


Do mesmo modo, a relação entre a sociedade e seus artistas é conflituosa. Mas, ao mesmo tempo, é sustentada pela admiração que os homens comuns nutrem por aqueles outros que questionam os dogmas vigentes. A própria vivência humana de Jesus foi marcada por questionamentos aos preceitos de seu tempo, inclusive e principalmente os religiosos.

No contexto da cultura ocidental, a Igreja Católica muito se beneficiou dos valores das artes, patrocinando e incorporando discursos artísticos aos seus ritos e expressões mais diversas. Tomem-se os casos das obras de Michelangelo na Capela Sistina ou o de A Última Ceia pintada por Leonardo Da Vinci. Todavia, a relação desses artistas com a Igreja foi muito conflituosa e continua sendo.

O Papa Júlio II, que encomendou as obras da Capela Sistina a Michelangelo, enfrentou diversas reações por parte do clero e dos devotos, que contestavam as imagens realizadas. Posteriormente, entretanto, isso deu lugar à admiração que se estendeu a toda Igreja Católica e a todos nós. A Última Ceia de Da Vinci, que desde o início foi considerada uma das obras mais caras à Igreja, serve hoje de ilustração para as teses do livro Código Da Vinci, que se contrapõem ao discurso e às tradições católicas.

Recentemente, a fotógrafa sueca Elisabeth Ohlson recompôs a cena da Última Ceia, na qual os discípulos de Cristo são drag queens em plena regalia. Sua obra causou enorme controvérsia na Suécia: um dos lugares onde foi mostrada, foi a Catedral Uppsala, a primeira igreja da nação. Ohlson faz parte de uma tendência dentro da arte que faz uso deliberado de incongruências para gerar uma obra polêmica.

A legislação vigente em âmbito internacional admite o direito comercial de propriedade sobre símbolos que são amplamente disseminados para captar adesões ideológicas ou comerciais. Uma vez que esses símbolos circulam na cultura, eles também são utilizados nos discursos culturais, que manifestam sua adesão ou contestação ao que os símbolos representam.

Estamos imersos numa cultura de mercado, em que tudo é transformado em mercadoria, inclusive os símbolos. Nesse sentido, os símbolos religiosos, assim como os sexuais, manifestam um alto valor por suas relações cruciais com a humanidade.

As igrejas de modo geral estão inseridas na cultura de mercado. A Igreja Católica, inclusive, muito contribuiu para o desenvolvimento das estratégias comerciais em torno dos bens simbólicos. Atualmente, os mesmos recursos utilizados para vender refrigerantes são utilizados para propagar crenças e ideologias políticas, religiosas ou comerciais.

Esse é um fenômeno evidente para qualquer cidadão que convive com um adesivo que representa a imagem de Nossa Senhora circundada por um Terço ao lado de um outro adesivo dizendo que devemos votar no Fernandinho Beira Mar ou beber Coca-Cola.

É esse contexto que sustenta nossa suspeita de que é demagógica a indignação de representantes políticos e devotos religiosos diante das obras realizadas pelo jovem artista e acadêmico do curso de Artes Visuais, Evandro Prado, que estão expostas no Museu de Arte Contemporânea de MS (MARCO).

Essas obras não fazem mais do que sobrepor imagens que já estão justapostas em todos os lugares da sociedade, confirmando em tom de denúncia que todos os símbolos foram tomados pela cultura de consumo e transformados em mercadoria.

As instituições políticas e religiosas deveriam agradecer o alerta, uma vez que todos nós já devotamos muita fé em entidades como Duda Mendonça e outros "santos" de plantão.

Confessamos que as obras são belas e chocantes, mas não são mentirosas. Mesmo que fossem, isso não vem ao caso, porque a fantasia e a mentira fazem parte da cultura e são plenamente confessas na arte. Infelizmente, ao contrário da arte, nas instâncias políticas e religiosas, a fantasia e a mentira são muitas vezes encobertas e acobertadas.

Nós, que atuamos no campo das artes, agradecemos a polêmica, porque essa deu visibilidade ao nosso trabalho. Neste momento, nossos símbolos estão sendo "vendidos" na mídia como mercadoria de grande valor.

Além disso, quantos cidadãos desta capital passaram a saber da existência de nosso Museu de Arte (MARCO) graças ao conflito. Esperamos que todos queiram ir ao museu ver de perto o motivo da polêmica e, também, deixarem-se encantar com a beleza do lugar e de todas as obras, polêmicas ou não, que estão expostas no seu interior.

Defendemos a liberdade, principalmente a liberdade de expressão. Por isso, defendemos o direito, de quem quer que seja, de contestar o que dizemos ou fazemos. Todavia, não podemos admitir qualquer tipo de censura às artes, do mesmo modo que defendemos a liberdade política e religiosa. Seria muito triste e vergonhoso retornarmos ao tempo em que a violência suprimia a liberdade, retirando políticos das tribunas, devotos das igrejas e obras dos museus e das galerias.


Eluiza Bortolotto Ghizzi e Richard Perassi,
Professores da UFMS (com o apoio dos Professores do Departamento de Comunicação e Artes da UFMS)

12 de Junho de 2006 - Jornal Correio do Estado