‘Meu trabalho tem como identidade questionar’

Polêmico, artista campo-grandense Evandro Prado conta sobre novos trabalhos e vida em São Paulo

Orgulho da arte contemporânea do Estado, o campograndense Evandro Prado encarou um processo civil e criminal da Arquidiocese da cidade por sua obra indiscutivelmente polêmica. Com opinião forte, o artista visual, que tem um pé nas artes plásticas, outro na fotografia e a mente sempre maquinando formas de movimentar a cena cultural fala sobre a mudança para São Paulo e expõe opiniões sobre temas que nem toda pessoa se sente segura para falar.


Hoje, aos 26 anos de idade “criou” a Nossa Senhora Desatadora dos Desejos, na cidade de Piatã, na Bahia e ajuda a empurrar o carrinho de pipoca artístico do projeto “Pagou, Levou” pelo Grupo Aluga-se - um coletivo de artistas que se unem para viabilizar exposições em São Paulo. Ele acredita na arte globalizada, sem fronteiras, e não faz questão de inserir elementos regionais em suas obras, embora admita que crescer em Mato Grosso do Sul o fez ser quem é hoje. Na época da exposição polêmica, em 2006, declarava-se um tanto socialista, atualmente afirma: “que é difícil ter uma posição política quando o PC do B de Campo Grande se alia ao Puccinelli e Lula se alia a Maluf”.

Artista campo-grandense, Evandro Prado tem um pé nas artes plásticas, outro na fotografia e a mente sempre maquinando formas de movimentar a cena cultural

O Estado - Você está morando onde? Foi para o exterior? 
Evandro Prado - Tem quase quatro anos que estou morando em São Paulo, uma exposição minha foi para o exterior no ano passado. Não viajei, foi apenas a obra para a Dinamarca. neste ano fiz uma Eurotrip de mochilão por 25 dias, em três países e nove cidades. Foi uma experiência incrível, ver os grandes museus ao vivo, ir ao Vaticano, Coliseu, Museu do Prado, que eu brinco que é o museu da minha família. Eu vi muita coisa que conhecia só pelos livros, pinturas, que você tem de fato a dimensão do tamanho delas, que vi sempre pequenas nos livros e algumas têm cinco metros de altura.

O Estado - Seu envolvimento com as artes começou como? Era desde pequeno?
Evandro Prado - Sempre fui muito curioso desde pequeno, queria ver, conhecer, ir a museus, qualquer coisa que tivesse a ver com a arte me interessava. Eu tinha uns oito anos e via a novela ‘‘Mulheres de Areia’’ para ver as esculturas do Tonho da Lua. Sempre desenhei, mas quando adolescente comecei a estudar, fazer cursos de pintura, não parei mais e fui parar na faculdade de Artes. Foi inevitável, quando vi já estava fazendo e era aquilo. Fiz UFMS, nasci e fui criado em Campo Grande.

O Estado - Quais suas influências artísticas?
Evandro Prado - Tenho muitas influências artísticas. Hoje estou estudando arte contemporânea, fazendo cursos. Lá em São Paulo, a gente tem várias oportunidades de cursos. O último que eu fiz foi sobre o Hélio Oiticica, que é o artista que cunha o termo Tropicália nos anos 60, 70. Ao estudar a obra dele, percebemos como influencia a arte de todo mundo hoje em dia. Não tenho nem como nominar os artistas que tenho como influência, mas o Oiticica é o que mais influencia a arte brasileira e a internacional.

O Estado - Aquela história de nada se cria tudo se copia é um pouco verdade? Mesmo que subconsciente?
Evandro Prado - Hoje em dia dizer que criou algo é muito difícil. Não sou eu que digo, muita gente pensa assim, que não tem como se criar, mas ao mesmo tempo não se copia. Pensamos a partir daquilo e se faz uma outra coisa, que parece com outra coisa ainda. Faz parte da criação. Tem um artista brasileiro, Nelson Leirner, que diz que os artistas estabelecem parentescos com outros. Em certos momentos a obra dele é filha do Andy Warhol, em outros ela é prima.

O Estado - Hoje você trabalha com quadros apenas? Ou expandiu mais ainda?
Evandro Prado - Não, eu tenho uma chamada identidade poética, que é o meu trabalho sempre ligado a questionamentos, a questões vindas da sociedade de consumo e da igreja como um todo, como instituição de poder e de influência. O meu trabalho tem essa identidade de questionar. Em termos de identidade visual, tenho feito desde fotografia a instalações e videoarte, pintura tenho feito pouco.

O Estado - Qual é sua formação religiosa? 
Evandro Prado - Eu não tive uma formação religiosa, mas minha família é de católicos não praticantes. Mas quando adolescente eu gostava de ir sozinho à igreja, meu interesse ali era pela estética, gostava de olhar para o templo visualmente, ver a cerimônia, achava a liturgia interessante e bonita.

O Estado - E a crítica chegou quando?
Evandro Prado - Em 2006 fiz aquela exposição “Habemos Coca” no Marco (Museu de Arte Contemporânea), que tinha a relação da religião do consumo.
Foi quando as obras não eram entendidas. Eu questionava essa sociedade capitalista que valoriza as marcas, te dá status pelo que você veste e não pelo que você é. Tem vários textos de críticos e pensadores, como Frei Beto, que falam sobre isso. Isso não foi entendido, acharam que eu estava simplesmente fazendo piada com as imagens religiosas e não era nada disso. Eu não estava fazendo piada quando pintei Jesus com uma latinha de Coca-Cola, interpretar que eu queria dizer que ele toma Coca é uma leitura rasa e superficial da obra. Nesse momento houve muita polêmica, um processo civil e criminal contra mim aberto pela
Arquidiocese de Campo Grande. Mas a exposição durou o tempo que tinha que durar, teve uma repercussão muito grande e muitas visitações para o museu. No fim, os processos contra mim foram todos arquivados, mas cheguei a ser intimado e ir a uma audiência.

O Estado - “Habemos Coca” é sua exposição de maior repercussão, e tem alguma outra para destacarmos?
Evandro Prado - Me mudei para São Paulo em 2008, comecei a conhecer pessoas novas da área e em 2010 participei de uma exposição chamada “Aluga-se”. Teve muita repercussão porque reuniu 30 artistas em uma casa muito grande em Alto de Pinheiros. O desdobramento dessa exposição foi a formação do grupo Aluga-se, que é aberto a artistas. Fiz parte de exposições nesse grupo junto com a Yara Dewachter. Sempre propomos coisas diferentes que fogem do dia a dia da arte.

O Estado - Como funciona o grupo Aluga-se?
Evandro Prado - Desenvolvemos muitos trabalhos em conjunto, é uma coisa que os artistas de Campo Grande podem fazer também. Até a Nilvana Mujica, da Capital, participa também do “Pagou, levou”. Uma das coisas em São Paulo que é muito diferente daqui é a dificuldade de se expor. Em Campo Grande você tem alguns espaços que abrem editais como o Marco, a Morada dos Baís. Você manda um projeto para um edital e concorre com 30 pessoas para dez vagas. Em São Paulo essas mesmas dez vagas têm 1.200 concorrendo. Fazemos no grupo Aluga-se nossas próprias ferramentas para expor, o “Pagou, levou” é um carrinho de pipoca, que vende caixas fechadas com três obras de arte dentro. São vinte artistas que podem estar na sua caixa, mas é surpresa. Fora do carrinho tem um display onde estão as obras e vamos para frente de exposições e feiras. Vendemos como forma de autogestão para o grupo e é um sucesso.

O Estado - Sobre suas pesquisas de materiais, como funciona? Em um momento você pinta telas, em outro coloca pregos para oxidar em cima de um pano.
Evandro Prado - Tem outra frase do Nelson Leirner em que ele afirma que toda a criação artística começa pela visualidade. São coisas que vemos em vários meios e a partir daquilo idealizamos como será o trabalho visualmente e então você pensa como executar. Eu uso de tudo, desde prego até retalhos de tecido. Tenho uma vontade muito grande de pesquisa de material. Fiz um trabalho com o grupo Aluga-se que foi uma residência artística na Chapada Diamantina, na Bahia, em uma cidade chamada Piatã. Ficamos por lá quinze dias e desenvolvi um trabalho que chamo de Santa Inventada. Mas, como fiz a Nossa Senhora Coca-Cola em 2006, que obviamente não existia essa santa da Bahia, passa por uma ideia de que ela pode existir. Se chama Nossa Senhora Desatadora dos Desejos, baseada na Nossa Senhora Desatadora dos Nós. Essa dos desejos desataria os nós dos desejos das fitinhas do Nosso Senhor do Bonfim. Fiz um santuário para ela, um poste de madeira de seis metros de altura, em cima desse poste tinha a imagem de um metro de altura da Nossa Senhora com três mil fitinhas do Senhor do Bonfim, amarradas com papéis (onde estão) escritos desejos reais de moradores de lá. Consegui autorização para fazer isso em frente à Igreja Matriz da cidade e vai ficar lá até se deteriorar, fiz neste ano.

O Estado - Os elementos regionais, você não faz muita questão?
Evandro Prado - Não vejo necessidade de afirmar essa identidade. É uma questão muito discutida. Nacionalmente, quando se fala de arte brasileira, em artistas que têm projeção internacional e colocam ou não elementos brasileiros na obra. Você não vê o pessoal de outros países colocando elementos franceses ou ingleses na obra. Como eu sou sul-mato-grossense, isso fica implícito na obra, não preciso colocar elementos óbvios.

O Estado - Você tem filosofia política? 
Evandro Prado - Hoje não. Não tem como definir isso hoje em dia, depois que eu vi o PC do B de Campo Grande se aliando ao André Puccinelli, o Lula se aliando ao Maluf... Então eu não quero me definir como nada, porque eles também não são.

O Estado - O comunismo prevê o próprio fim, já que não pode ter lideranças únicas. Você acha que a sociedade está preparada para isso? Se sua exposição da Coca-Cola foi mal interpretada, de lá para cá isso melhorou ou piorou?
Evandro Prado - Sinceramente, tenho ouvido muito essa discussão do politicamente correto e a sociedade tem dado uma “encaretada”. Eu acho que não melhorou, você vê o crescimento de bancadas evangélicas no Congresso, que barram muitas leis e não vejo isso com bons olhos.

O Estado - As religiões cerceiam o pensamento? 
Evandro Prado - Sou muito crítico com isso. Acho que a espiritualidade faz muito bem para as pessoas, é importante ter fé, eu tenho a minha. Mas as religiões em si são instituições que historicamente barraram a civilização, cercearam pensamento, progresso filosófico e em muitos momentos atrapalharam.

O Estado - Financeiramente em São Paulo você sobrevive melhor?
Evandro Prado - Eu nunca tive vontade de mudar de Campo Grande, mas em 2008 decidi de uma hora para a outra mudar. De certa forma me decepcionei com algumas questões profissionais aqui no Estado e senti vontade de buscar novos desafios e horizontes. Em seis meses me mudei, lá tenho conseguido me virar, pagar minhas contas, consegui até viajar. Tenho vendido meus trabalhos, ajudo a coordenar o grupo Aluga-se e estou sobrevivendo exclusivamente de arte.

O Estado - Tem algum trabalho novo?
Evandro Prado - Tenho. Esse trabalho de Piatã estou desdobrando, criando trabalhos que legitimem a santa que eu inventei como uma santa verdadeira. Criei um documento de canonização dela, totalmente falso, mas são formas de questionar, pois existe uma burocracia para comprovar que uma pessoa é santa.


Laís Camargo
Sábado, 14 de julho de 2012
Jornal O Estado Mato Grosso do Sul