Arte do pensamento, convite ao confronto - Por Renato Joseph

Evandro Prado revê a postura do espectador e o transforma em sujeito inerente à obra; o homem não apenas admira, mas se torna alvo ironizado.

O filósofo francês Gaston Bachelard, em seu essencial tratado sobre o poder da imaginação criadora, investigou, de maneira exaustiva, a potencialidade inventiva do ser humano em seus primeiros anos de vida. Bachelard relacionou, com maestria, a singularidade da capacidade imaginativa e despretenciosa da criança, com seu universo de “quimeras, sonhos, lembranças e imagens”, ao espírito de pureza fantástica que deve ser inerente à personalidade e ao ofício do artista, aspecto que ele jamais deve abandonar.

Intitulado “A Poética do Devaneio”, o estudo de Bachelard aponta que a imaginação infantil orienta a verdadeira criação e invenção, o objeto, a pintura e o conceito. Não que o artista, em sua maturidade, deva infantilizar a razão. Mas que enfrente os paradoxos impostos pelo vivido, como pensador, que recusa o simples papel do raciocínio para adquirir uma postura de sonhador. O artista torna-se, então, aquele para quem as imagens poéticas são fontes insubstituíveis de saúde do ser. Proporcionando ao homem o convite, por meio do pensamento, de refletir sobre a complexidade de si mesmo e da relação com o outro e com o mundo.

Recordar o pensamento de Bachelard é sempre propício quando o abstrato do fazer artístico é o assunto a ser debatido. Mais propício ainda quando se fala da prática de um artista plástico que sabe incorporar em sua obra esse duplo viver de experiência e capacidade reflexiva, abarcado pela constante referência a suas imagens da infância. A imaginação primeva de que fala Bachelard não se perdeu na obra do artista plástico Evandro Prado que, apesar de perseguir e encontrar maturidade na abordagem e na estética, adquiriu e caminha perseverando um jeito único de praticar sua arte como quem brinca com o outro.

São as reminiscências fixadas no cotidiano de experiências vivenciadas durante seu próprio desenvolvimento. É a prova de que o ser humano é herdeiro de sua história antropológica e o artista, principalmente esse sul-mato-grossense de 27 anos, herdeiro de suas próprias referências. Nesse baú, repleto de relíquias, é que Prado recorre para reinterpretar símbolos que descobriu no passado e dar a eles um novo fôlego.

Dono de uma perspicácia única, o rapaz transforma seus devaneios em crítica social e política, quase sempre introduzindo os espectadores dentro de suas ironias, e potencializando, assim como Brecht fez com seu teatro épico, o ideal de que a obra de arte não é apenas um deleite passivo, mas um acontecimento em que se abandona a postura de simples admirador, para se transformar sujeito da obra. O homem, portanto, é exposto e tem a chance de se reavaliar ou continuar no obscurantismo do pensamento, revelando, involuntariamente, seu estado de alienação.
Primeiros passos

Foi justamente na infância que tudo começou para esse artista plástico que deixou Campo Grande, MS, sua cidade natal, para fazer de São Paulo, SP, sua nova casa. Em esculturas na areia da praia, nos primeiros rabiscos no papel, assim como nas paredes e no sofá de casa, nas aberturas de novelas e programas de TV, ele começava a construir um imaginário poético e crítico. Ainda criança, Prado também adorava cemitérios e imagens de santos nas igrejas, e ficava fascinado com a liturgia praticada em enterrros e manisfestações religiosas.

Todos os aspectos que proporcionavam a contemplação visual e aguçavam sua imaginação criativa, ele guardava. Naquele período não passava pela cabeça do garoto que a atração pelo universo do “sagrado” seria um ponto forte em sua formação como artista plástico. O referencial que abarcou nos primeiros anos compremeteria toda a história que ainda estava para ser protagonizada por ele.

Aos 13 anos, quando começou a se interessar por desenho e pintura, Prado passou a investigar sozinho formas de aprendizado, procurando aperfeiçoar a aptidão que possuía. Após se matricular em um curso de desenho, não teve dúvidas, queria se tornar artista plástico. Em 2002, ingressou no Curso de Artes Visuais da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS). Do clássico ao contemporâneo, o então universitário mergulhou no estudo teórico e nas pesquisas em história da arte para tentar entender qual caminho seguiria.

Nesse processo é que ele se apaixonou por trabalhos de artistas renomados, como Nelson Leirner, Adriana Varejão, León Ferrari, Cildo Meireles e Maurizio Catellan. Na esteira desses nomes que levam a arte contemporânea para caminhos inovadores, Prado começa a dar os primeiros passos. Ele embarca incialmente pelos trilhos da pintura e estende sua pesquisa para as instalações e para a fotografia, alcançando êxito em todas elas.
O artista mostra a veia polêmica e alcança projeção

Agora, já com o domínio do desenho e das tintas, de todo o aparato teórico e técnico, Prado parte para a união da estética e da reflexão. Ainda em Campo Grande, ele lança a exposição “Habemus Cocam”, onde inseriu imagens de santos da igreja católica em contextos da indústria de consumo. Na obra, o artista plástico uniu figuras consideradas sagradas com símbolos da marca de refrigerante mais consumida do mundo para retratar uma sociedade obcecada pelo lucro e disposta a banalizar tudo, elevando o mercado e seus produtos à adoração.

Com essa exposição, o recém-formado em artes visuais inaugura em seu trabalho um embate com os costumes parasitários da sociedade de consumo que viria a nortear toda a sua obra posterior. Como era de se esperar, a exposição “Habemus Cocam” surtiu efeito entre as lideranças da igreja católica em Campo Grande e trouxe à tona o conservadorismo da instituição. A exposição foi alvo de abaixo-assinado, repúdio do arcebispo Dom Vitório e ação criminal movida pela diocese de Campo Grande.

Acusado de crime de blasfêmia à imagem sacra, a ação é aceita e as lideranças religiosas pedem a destruição das obras. Após ser alvo de pronunciamentos de repúdio também na Assembleia Legislativa do Estado de Mato Grosso do Sul e Câmara Municipal de Campo Grande, MS, por lideranças políticas, Prado é intimado para depor, mas a ação é arquivada. Encerrada a polêmica, “Habemus Cocam” é selecionada pelo programa Rumos do Itaú Cultural, uma iniciativa cujo objetivo, em seus próprios termos, constitui um “mapeamento do melhor da arte contemporânea emergente do Brasil”. A exposição nunca foi cancelada e o público triplicou por causa da polêmica.

É perceptível, no prenúncio da obra de Prado, aspecto que persiste e se estende evidentemente no quesito pintura, uma forte referência da Pop Arte. Com um tratamento de representação puramente realista, em “Habemus Cocam”, assim como em seus famosos retratos de figuras conhecidas do grande público, existe uma visualidade de comunicação inerente à linguagem publiciátia. Esse é um dos aspectos que desenvolvem no espectador um estado de profunda atenção.

Artista inquieto e curioso em suas investigações, Prado não perde o interesse pela iconografia católica e, em 2008, parte para uma nova reflexão do tema. Com a exposição “Estandartes”, ele trouxe para o Museu MARCO, em Campo Grande, bordados de tecidos diversos e colagens de objetos, como terços, santinhos, medalhas devocionais e munição de armas de fogo. No mesmo ano, Prado se apropria novamente das imagens sacras para, por meio da exposição “Alegorias Proféticas”, utilizar o apocalipse bíblico para construir uma metáfora sobre a culpa, a fragilidade e a condescendência do homem sobre o que é imposto como verdade absoluta.
A reflexão nietzschiana para expor a superficiade cristã e a crítica ao consumismo

Para Nietzsche, um dos principais críticos dos cristãos, essa vertente religiosa ensina que o reino de Deus está nos corações dos homens, mas traiu essa intuição fundamental quando transformou o Reino em um “outro mundo”, um universo mais além. Quando se desloca o centro de gravidade da vida no “mais além”, o que para Nietzsche é o nada, tira-se da vida o seu centro de gravidade
Nietzsche considera que, além de implantar no homem a ideia de pecado, pensamento que o enquadrou em um estágio de negação da vida, a noção de reino minou de sentido todo e qualquer valor natural que pode garantir o surgimento de uma vida ascendente. Ele considera que essa doutrina corrompeu e condenou todo o olhar sadio sobre a existência. O homem passou, então, a não viver o agora, com a esperança de uma vida eterna e perfeita no paraíso.

Em “Alegorias Proféticas”, Prado explora o apocalipse e a noção de pecado para mostrar, confirmando o pensamento de Nietzsche, como a subjetividade do homem está fadada ao medo e à flagilidade. Em suas limitações, o indivíduo não empreende a luta que é exclusivamente dele, mas pautado na moral cristã, tão instituída na sociedade ocidental, ele entrega a solução para todas suas dores a Deus, ao mesmo tempo em que se entrega ao medo do castigo apocalíptico e inquisidor dessa figura que encara com mistério e temor. Na obra de Prado, assim como na filosofia de Nietzsche, o homem perdeu a sua autonomia para aquilo que considera “sagrado”.

Em “Habemus Cocam”, o artista busca incessantemente uma crítica ao modo de produção capitalista, na qual a propaganda é ferramenta fundamental para a venda e o consumo em massa de produtos. O capitalismo aparece como inversão de valores, tornando atrativo o mundo “colorido, alegre e brilhante” que, na verdade, não existe. Evandro estabelece uma relação certeira do consumismo com o cristianismo pelo fato de transformarmos as marcas em objetos de adoração para os quais também esperamos as soluções de nossos problemas.
O artista exilado

Em 2008, Prado deixa Campo Grande para morar em São Paulo. Em busca de especializações e novos desafios para a sua arte, o sul-mato-grossense se apaixona pela arquitetura e efervescência cultural da cidade. Já na capital paulista, se reúne a outros artistas plásticos e, juntos, criam o grupo “Aluga-se”. Autogerido pelos próprios artistas, o grupo funciona como uma plataforma que estabelece ações diferenciadas no universo da arte.

Com exposições em São Paulo, Dinamarca e Campo Grande e sempre idealizando ideias que buscam reciclar as artes plásticas e promover intercâmbio, o grupo elaborou, em 2011, o projeto “Até Meio Quilo”, que obteve repercussão nacional e viajou por oito cidades do Brasil. A proposta era que cada artista, de qualquer parte do país, enviasse sua obra pesando até 500 gramas, em um envelope dos Correios para a instituição que estava recebendo o projeto.

Dentro do grupo “Aluga-se”, Prado começou a desenvolver várias pesquisas. Em 2009, deu início a uma série de pinturas a partir de um trabalho estruturado por meio oxidação de prego sobre o tecido. A série, que foi exposta em São Paulo e ganhou prêmios nos salões de Atibaia, Praia Grande e Santo André, possui uma estética rústica e expressa detalhes exagerados de ornamentos da arquitetura barroca presente nas igrejas católicas. Prado constrói um desenho cheio de curvas a partir de retas, estabelecendo um paradoxo do que é o barroco. Ressalta-se que esse período da história da arte é, em sua essência, a expressão de antagonismos entre o céu e o inferno, a luz e a sombra, a vida e a morte. Prado utiliza os pregos no processo de pintura porque esses objetos são símbolos da crucificação e foram utilizados como metáfora do sofrimento dos escravos na construção dessas mesmas igrejas.

Com o projeto aprovado pela Fundação Nacional de Artes (FUNARTE), na 8ª Rede Nacional de Artes Visuais, Prado e o grupo “Aluga-se” recebem, em 2012, o prêmio de residência artística na cidade de Piatã, localizada nos arredores da Chapada Diamantina, Estado da Bahia. O objetivo era fazer uma exposição na cidade e ministrar oficinas de arte para os moradores. Na ocasião, ainda na esteira de sua abordagem da ressignificação de figuras sacras, Prado se apropria da imagem de Nossa Senhora Desatadora dos Nós para criar a imagem fictícia de Nossa Senhora Desatadora dos Desejos.
Com essa obra buscou ironizar o costume da igreja em criar imagens de adoração para todos os percalços da vida. Prado montou uma estrutura de madeira, com altura de seis metros, como suporte para uma imagem de um metro, que representava a santa inventada, além de amarrar três mil fitinhas do Senhor do Bonfim ao redor da imagem com os pedidos dos próprios moradores.

Quem passasse por ali poderia fazer o seu pedido. A obra acabou criando um diálogo inusitado com os habitantes da cidade, que acreditavam na figura inventada como algo verdadeiro. Revelou-se a fragilidade do homem colonizado pelo pensamento religioso e como tal pensamento imposibilita a abstração e o embarque na complexidade do homem.

Prado, ressignifica, por meio de sua obra, o sagrado e propõe um diálogo que ultrapassa a contemplação estética para, ironicamente, atingir o existencialismo humano. A fantasia se encarregando de suscitar conflitos e sentimentos genuinamente verdadeiros. Uma obra que se revela essencial, porque, ao ser posicionada além do olhar, gera reações interiores que, depois, são expostas em sinais de espanto, dúvida, repulsa ou aceitação. Resposta ao que a arte exige quando é intitulada como tal: atuar como poder transformador em seu receptor que, impactado, também emite.

Por Renato Joseph (novembro/2012)