Exposição: Aluga-se Ville

Coletiva
Central Galeria de Arte
São Paulo – SP, de 8 de Novembro a 15 de Dezembro de 2012.

Instalação
“Dominus Tecum”, 2012
Tecido, madeira, resina e vela
300 x 250 x 350cm







Um prólogo para o Aluga-se Ville*

Existem duas datas a considerar para o início deste prólogo. A primeira é a quase primeira década de lançamento do filme Dogville (2003), origem das primeiras ideias que mobilizaram os artistas a realizar a exposição Aluga-se Ville. A segunda é 2010, ano em que, por uma razão circunstancial, a casa habitada por um grupo de artistas durante o segundo semestre e sua condição temporária “disponível à locação” se tornou a força-motriz para o surgimento das ações colaborativas que desde então eles adotaram. De lá pra cá, esse grupo-não-grupo já atravessou o Atlântico e visitou as cinco regiões do país com suas exposições que reinvestiram grande quantidade de iniciativas adotadas por artistas do século passado, estruturando um sistema para a circulação de exposições e meios para financiá-las. Nesse quadro, o Aluga-se construiu suas moedas de troca, seus modos de ativar e redefinir circuitos. Ocupou uma casa, alguns museus e galerias, fazendo deles imóveis locados ou disponíveis à locação. Enquanto corretores desses espaços, e atuando também na condição de locatários, acentuam com certa ironia o modo operante adotado pelo sistema, sobretudo no que tange à legitimação e institucionalização da arte. Essa ironia está em assumir a postura daquele que consegue – através de um modo aplicado pelo mercado imobiliário – instituir seu espaço. E ainda que esses locatários, na condição de artistas, detenham a propriedade primeira sobre a arte – que serve como segurança no trâmite -, não é dito que isso facilite em algo no processo. É que mesmo sendo a arte peça rara no mundo, com seu modo particular de instituir pensamentos simbólicos, isso não garante uma ocupação profícua do lugar locado. Depois de ocupado, os artistas-locatários precisam organizar, sublocar, cobrar e pagar multas, zelar, construir, reformar, comprar e vender, vistoriar as condições gerais do imóvel e, sobretudo, a maneira de expor e mediar o que produzem.

Agora é a ville (cidade) quem foi atingida pelo Aluga-se. Ela foi extraída de Dogvillee tornou-se não adjetivada e nem mesmo associada a uma família patriarcal, costume medieval adotado em algumas cidades do mundo. Ela é ao mesmo tempo “cidade Aluga-se” – enquanto realidade construída a partir do convívio dos artistas com esse modo inusitado de constituir suas leis no território da arte –, cidade disponível à locação, ou ainda a imagem de uma cidade que loca tudo o que dispõe. De Dogville, eles guardam fragmentos da trama, fazendo com que o jogo de poder e as alegorias que surgem ao longo do filme tornem-se periféricos. Em compensação, a maneira com a qual eles delimitam o perímetro da cidade, as leis que a regem e sua fantasmagoria, os mesmos equívocos necessários e as mesmas ideias sobre privacidade que aparecem em Dogville, cá estão em Aluga-se Ville.

Há uma consideração basilar na exposição, mas não menos importante, para experimentá-la: nossos problemas sempre serão os mesmos. A diferença está em como abordá-los. É por isso que não será difícil encontrar na exposição obras que manipulem o ambiente doméstico em seu aspecto labiríntico, a complexidade existente em definir o que é o lugar privado e a sensação de propriedade que acreditamos ter sobre as coisas que nos pertencem pelo tempo que passaremos com elas. A ideia de paisagem virtual e sua monumentalidade, o aparente domínio sobre a identidade ou a ofuscante memória que determina aquilo que ainda podemos ser, tudo caminha em paralelo com a obra de Lars von Trier. Ao final, Aluga-se Ville parece interrogar o que de fato nos pertence. Estaríamos na mesma condição de locatários?

Josué Mattos


*Texto da Exposição coletiva