Artista que aposta na polêmica volta à cidade com exposição sobre a Igreja

Em 2006 ele causou polêmica em Campo Grande com a mostra “Hebemus Cocam”. A proposta era falar sobre o culto a determinadas marcas, mercadorias e ao dinheiro, mas o trabalho, ao invés de ser assimilado e compreendido, foi visto com uma afronta à Igreja Católica, irritou fiéis e, claro, alguns políticos que repudiaram o ato e chegaram a pedir o cancelamento da exposição.


Busto do Papa Bento XVI. (Foto: Vanderlei Aparecido)

Mas pudera. Em um país predominantemente católico e em uma Capital não muito aberta às manifestações artísticas, ver o manto de Nossa Senhora sobre uma garrafa de Coca-Cola ou uma latinha do refrigerante no lugar onde deveria estar o sagrado coração de Jesus, geraria, no mínimo, estranheza, para não dizer revolta. Era de se esperar.

Aqui, infelizmente, a exposição de Evandro foi vista como provocação e não como arte contemporânea. Faz parte. São os “ossos do ofício”, como diz o ditado popular. Na visão de críticos, estudiosos do assunto, a não compreensão poderia ser descrita como “um abismo entre o espectador e obra”.

A explicação vem do próprio artista, Evandro Prado, que voltou à cidade para uma nova mostra e falou com o Lado B. O campo-grandense, que reside em São Paulo desde 2008, continua a trabalhar com a iconografia católica e, desta vez, apresenta a “Dominus Tecum” ou “O senhor está convosco”.

Trata-se de uma exposição com cinco trabalhos inéditos: duas esculturas, uma fotografia, um vídeoarte e uma instalação.

“O que une tudo isso é que eu continuo minha pesquisa dentro da iconografia católica. Busco desestabilizar e dessacralizar o sagrado. Eu tento, de certa maneira, questionar essa iconografia tão simbólica”, disse.

Um das esculturas é do busto do Papa Bento XVI. Evandro apresenta-a como um “troféu de caça”, que sai da parede, como se fosse a cabeça de um boi ou de um veado, por exemplo.

A idéia é falar do Sede vacante, o "trono vazio”, nome dado ao período em que a igreja elege um novo pontífice, mas vai além. “Eu falo um pouco dessa crise do catolicismo, do Vaticano, da renúncia do Papa. Eu apresento essa escultura de maneira irônica, como um troféu”.

A outra é um lampadário, uma espécie de lustre que decora santuários, mas só tem uma vela como ponto de luz. A escultura foi construída com cerca de 60 imagens de santos, colados de cabeça para baixo.

“Esse é um objeto que dá luz. Constituído por imagens de cabeça para baixo revela um paradoxo, um questionamento sobre a própria história do catolicismo”, explicou.

Detalhes dos santos colados de cabeça para baixo. (Foto: Vanderlei Aparecido)

O vídeoarte, segundo o artista, é a obra mais difícil da exposição Dominus Tecum. São dois vídeos que mostram a mesma escultura de cemitério, um anjo segurando um tecido. “Para mim é como se fosse um sudário. Ele fica balançando ao vento. É um trabalho que fala da morte e melancolia”.

A fotografia é outro destaque. Chama-se “Ruína” e mostra uma imagem de madeira de Jesus Cristo deixada sobre um banco no altar. O registro foi feito pelo próprio artista, em Salvador. “A imagem estava de qualquer jeito, em uma igreja abandonada. Fotografei e fiz uma ampliação de 80 por 1,20 metro”, contou.

"Ruína", foto da igreja abandonada em Salvador. (Foto: Vanderlei Aparecido)

Na avaliação de Evandro, o trabalho reflete o atual momento da Igreja Católica que, além da crise, está perdendo fiéis com o crescimento do número de evangélicos.

Entre os cinco trabalhos expostos, o maior é a instalação, composta por 5 mil tijolos em uma área de 9 x 14 metros. A disposição com que as peças foram colocadas no chão deixam um vazado no meio da sala.

O desenho que se forma é da planta baixa de uma igreja no estilo medieval e com cruz latina. Os tijolos representam os fiéis. “A metáfora é de uma não-construção. Quem constrói uma igreja são os fiéis, que estão para fora”, revelou.

Evandro sabe que a mostra pode gerar interpretações diferentes do conceito criado por ele. O busto do Papa, por exemplo, pode ser visto como uma homenagem. “Não sei se as pessoas vão entender, mas eu não posso me responsabilizar por isso”, declarou, ao dizer que a arte contemporânea é aberta, livre para avaliações.

O artista não acredita que o novo trabalho possa gerar polêmica, como aconteceu em 2006, porque a nova mostra está mais implícita, “sutil” e a proposta, como nas exposições anteriores, não é essa.

Evandro se define como um questionador. (Foto: Vanderlei Aparecido)

“Quando tento desestabilizar essas imagens eu estou pensando sobre uma igreja constituída por homens acusados de pedofilia, por homens que participaram da inquisição; uma igreja que foi a favor da ditadura no Brasil e que se calou diante do holocausto na Europa”, disse.

“Eu tento levantar questões histórias, mas não de maneira escancarada. Depende de uma segunda leitura”, ressaltou.

Temporada 2013 – A exposição Dominus Tecum é uma das quatro que integram a primeira temporada 2013 do Marco (Museu da Arte Contemporânea), em Campo Grande. O espaço fica aberto para visitação gratuita até o dia 2 de junho, de segunda a sexta, das 12h às 18h.

Além da mostra de Evandro Prado, os visitantes terão acesso a outros três trabalhos: “Trajetos Urbanos”, uma exposição fotográfica da artista plástica Esther Casanova, de São Paulo, "O Relógio Quebrado”, de Henrique França e o “Museu de História Ficcional”, de Yara Dewachter.

Serviço – O Marco fica na rua Antônio Maria Coelho, 6000, no Parque das Nações Indígenas. Outras informações podem ser obtidas pelo telefone (67) 3326-7449.


Elverson Cardozo
Quarta-feira, 10 de abril de 2013
Campo Grande News (www.campograndenews.com.br)