Exposição: 8º Rede Nacional Funarte de Artes

Coletiva
Piatã – BA. de 23 de abril a 09 de maio de 2012.

Instalação
“Desejos Breves”, 2012
Poste de madeira, imagem de gesso e 3000 fitinhas do Senhor do Bonfim
7 metros de altura
instalado em frente a Igreja Matriz de Piatã-BA

Instalação
“Diário Piatã”, 2012
fotografias e objetos encontrados
dimensões variáveis

Instalação
“Reverdecer”, 2012
terra e imagem de resina
2,6m de diâmetro

Desejos Breves

Desejos Breves

Diário Piatã

Diário Piatã

Diário Piatã

Diário Piatã

Diário Piatã

Reverdecer

Reverdecer

Reverdecer

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Artistas-etc. em um recanto do Brasil

O projeto Piatã não é em si um projeto e resultou em uma exposição que não foi reduzida à exibição de obras de um conjunto de artistas. Embora sua execução seja decorrência de um prêmio obtido, cujo pressuposto é o planejamento de certas ações, as etapas realizadas em Piatã não foram projetadas com conhecimento de caso, até porque apenas um dentre os cinco artistas conhecia a cidade, situada a mais de 550 km de Salvador. A execução do projeto – continuaremos a chamá-lo assim por conveniência – foi antes de tudo a experiência do trajeto, a permanência e os encontros com os habitantes da cidade. De antemão, é importante mencionar que ir até Piatã permitiu a esses artistas a aproximação com uma vertente da arte, revertendo o princípio do artista que se aproxima de pessoas desprovidas de contato com a produção simbólica para então iniciá-las ao pensamento vigente, ideia veiculada há quase dois séculos com a chegada da Missão Artística Francesa no Rio de Janeiro. De fato, introduzindo valores neoclássicos no modo de vida e na produção da época, os artistas da Missão pareciam trazer o sentido que faltava na prática artística local. Em Piatã, tal paralelo com a Missão não parece sequer pertinente, mas existe um dado que merece ser pontuado: o anúncio da chegada de uma exposição de arte contemporânea suscitou no povo pacato a ideia de artistas metropolitanos, “marotos como são”, trazendo consigo toda soberba conhecida desde o período da Independência. Com suas formulas etnocêntricas, eles chegariam prontos para introduzir os piatenses na atualidade do pensamento e prática artísticos. Contudo, longe dessa iniciativa fadada à falência em sua gênese, o ato de espalhar cartazes que anunciava o grande evento do momento, gerou nos artistas a imagem de “astros que chegaram de jegue” na cidade. A aparente soberba era rapidamente percebida como uma ironia dirigida ao sistema especulativo e espetacular da arte atual que, em nome de poética visual, constrói, em muitos casos, estratégias artificiais para firmar a marca de registro do artista no mercado. Criando uma sátira com a imagem ultra-midiatizada do artista contemporâneo, Evandro Prado, Fabiano Soares, Giba Gomes, Yara Dewachter e Renato Pera apareceram pela cidade em cartazes que divulgava uma exposição-acontecimento.

Neste sentido, uma característica do acontecimento em Piatã foi a possibilidade de conviver com a arte desatrelada de seu valor de culto ou de exposição, meios empreendidos para mediar à obra e o artista na tradição ocidental. E mesmo que a adversidade, ausência e até certa repulsa por formação simbólica sejam recorrentes na vida de grande parte das pessoas com quem os artistas conviveram, o eixo que os ligavam na experiência piatense deu vazão ao pensamento que buscava desativar a estrutura fetichista da arte, do artista e da obra, com proposições que expandiram seus horizontes, assim como o do público, a partir da segunda metade do século XX. Assim, não foi difícil perceber em relatos feitos pelos artistas que eles saíram de Piatã com mais informações sobre a natureza da arte e do artista do que poderiam ter transmitido ao público com quem mantiveram contato. Isso porque o espaço reservado à exposição existiu apenas como endereço para o encontro dos artistas com o público e deles com as obras, em sua grande maioria constituída a partir da paisagem, tradições, crenças, retratos e objetos locais. Sem que ninguém soubesse a natureza da exposição e, sobretudo das obras que encontrariam, a exposição de arte contemporânea tornou-se um evento para uma experiência compartilhada. Ao mesmo tempo em que o público desconhecia o que viria a ser a tal de “arte contemporânea”, os artistas armavam um encontro sem qualquer consideração de quem seriam seus anfitriões. Entre o prefeito da cidade e outras pessoas ilustres que confirmaram presença, alguns saiam dali convidando outros para irem ver os “artesanatos bonitos”, outros se deixavam levar pela conversa com os artistas, que nessa ocasião tornaram-se também produtores, garçons, assessores de imprensa, mediadores, proponentes, curadores, “etc.”

Em 1967 a Exposição não Exposição realizada por Nelson Leirner encerrava as atividades do Grupo Rex e retirava – não sem o tom crítico que caracteriza a obra do artista – o espectador de seu lugar contemplativo, problematizando seu estatuto em confronto com o objeto-de-arte-e-de-desejo exibido em seu lugar de legitimação. Com a exposição experiência (Whitechapel Experience – 1969) de Hélio Oiticica, que reunia suas apropriações, arte-ambientais e o que ele definia como Crelazer, a natureza da arte também foi redimensionada, pensando desta vez na partilha da experiência e no que o artista definia como a possibilidade de “transformar os processos de arte em sensações de vida.” Partindo de algumas dessas práticas que enaltecem o caráter vivencial da arte em detrimento do estatuto amorfo e insípido do artista e da obra, o grupo de artistas que foi para Piatã – integrantes do Aluga-se – estabeleceu com a cidade aproximações que de alguma maneira irradiavam tais princípios, guardando a distância de mais de quarenta anos que os separa das proposições mencionadas. Entraram no bochicho da cidade e rapidamente passaram a ser o assunto de mercearias, jornais da região, escolas, clubes, etc. A relação travada com o público teria como ponto de encontro uma loja de utilitários desativada por tempo determinado e a própria cidade, que cada artista resolveu investir à sua maneira. Mais que aparecer por lá com obras que criaria uma espécie de cartilha sobre a produção simbólica atual, o interesse de cada artista foi conduzir a produção das peças que compuseram à exposição depois de deambular pela cidade, conjugando trabalhos preconcebidos com a paisagem local e identificando no lugar em que se encontravam a condição para estreitar relações com a população do pequeno município. Há nessas atitudes o indício do quanto o diálogo e o convívio permitem eliminar pensamentos estereotipados e obsoletos. Do contrário, seja para o pseudo-artista-etnólogo que poderia ter deixado a metrópole para identificar as lacunas da população desprovida do que ele qualifica de vida avançada, seja o piatense pouco interessado pela troca com o estrangeiro, ninguém teria sido favorecido com a capacidade emancipadora da arte.

Nesse terreno de contaminações mútuas entre artistas e habitantes de Piatã, o termo etc. como qualificação suplementar ao artista, evocado por Ricardo Basbaum para distinguir aqueles que questionam “a natureza e a função de seu papel”, parece se aplicar ao que foi vivenciado por esses integrantes do Aluga-se, dando continuidade a outras ações executadas pelo grupo em seus poucos anos de existência. Isso porque, segundo Basbaum, o artista etc. traz “para o primeiro plano conexões entre arte&vida (o ‘an-artista’ de Kaprow) e arte&comunidades, abrindo caminho para a rica e curiosa mistura entre singularidade e acaso, diferenças culturais e sociais, e o pensamento.”

Esse caminho aberto pela exposição de arte contemporânea permitiu que as diferenças culturais instaurassem um terreno para o diálogo metalinguístico: enquanto alguns dos participantes dos debates e oficinas realizados pelos artistas descobriam especificidades de obras e artistas inseridos em momentos distintos da história da arte, os artistas que até lá foram se deparavam com modalidades, regimes e componentes que podem reafirmar o quanto a arte pode efetivamente agregar e diminuir a distância entre os mundos. Piatã até pode parecer um lugar pacato e sem a menor condição de influir em nossos mundos metropolitanos avançados tecnológica e cientificamente. Mas, daí a tentar aplicar essa afirmação nos dias de hoje, sobretudo no território da arte, seria a tentativa vã de cristalizar valores retrógrados em um circuito com pouca precisão na constituição de suas categorizações e fronteiras.

Josué Matos