Exposição mostra o melhor de Mato Grosso do Sul
A exposição “Diálogos
Contemporâneos”, que ainda se encontra no MARCO,
é desconcertante. Mostra, acima de tudo, que as artes
plásticas continuam a ser o espaço avançado
de sensibilidade estética de Mato Grosso do Sul. Tivéssemos
algo parecido na música e na literatura, por exemplo,
estaríamos feitos. Mas isso é outro assunto...
Quem se interessar em fazer uma espécie
de viagem onírica pelo nosso imaginário modernizante
deve, obrigatoriamente, passar algumas horas no museu, observando
os trabalhos dos dez artistas (quase todos oriundos dos cursos
de graduação e pós-graduação
do Departamento de Artes e Comunicação da UFMS)
que ali estão expondo – formando amplo painel que
marca uma espécie de reflexão imagética
de uma nova geração de artistas locais. No pouco
tempo que estive no museu na última sexta-feira, só
posso dizer que fiquei impactado com o que vi.
Não pretendo aqui discorrer sobre o
valor individual dos trabalhos apresentados, mesmo porque me
pareceu que a proposta da exposição – corretamente
– é possibilitar ao público que compreenda
que há um movimento estético avançado em
curso e que este processo vem ocorrendo por meio de diálogos
complementares em torno de temática diversa e conceitos
diferenciadores.
Nesse aspecto, a exposição pode
até ser considerada altamente fragmentária, mas
parte do pressuposto que toda conversa que pretende estabelecer
certa homogeneidade de seus interlocutores acaba resultando
em reducionismos regressivos. Por isso, as obras ganham dimensão
exatamente porque propõem uma discussão intermitente,
que inclusive não se esgota com a própria exposição.
O que mais gratifica, contudo, é saber
que em Mato Grosso do Sul está se produzindo uma das
melhores artes visuais do País. Dessa maneira, louvo
a equipe que hoje comanda o Museu de Arte Contemporânea,
visto estar realizando uma espécie de revolução
silenciosa nessa área, a qual poderá (acredito
com certo otimismo) ser legitimada um dia pelo chamado “bom
gostismo crítico” da mídia do eixo Rio–São
Paulo.
Por intermédio de “Diálogos
Contemporâneos” fica evidente a variedade explosiva
das artes plásticas do Estado. Há visões
multiplicadoras que amalgamam o primitivo e o moderno, o figurativo
e o abstrato, o místico e o erótico, realizando,
dessa maneira, uma tessitura polifônica que, em vez de
atordoar, nos possibilita a ampliação da sensibilidade
para que compreendamos a mecânica histórica na
qual estamos inseridos.
Esses artistas deixam claro que estão
verdadeiramente sintonizados com o mundo (pós) moderno.
Cada obra apresentada é reveladora. Não há
como não ficar vivazmente impressionado com seus trabalhos.
Eles não só revelam tendências, mas iluminam
conceitos para que possamos vislumbrar como Mato Grosso do Sul
está vendo a si mesmo, ao nosso tempo e o mundo disforme
que nos cerca. Trata-se assim de um notável esforço
interpretativo.
Dentre os 10 expositores selecionados para
esta mostra, cerca de quatro deles eu os colocaria numa espécie
de panteão estético sul-mato-grossense, visto
ser perceptível alguma centelha de genialidade. Mas atribuo
a isso a certa empatia individual, mesmo porque sou apenas curioso
na matéria.
O que importa, na verdade, é a ousadia
pela qual nossos artistas estão experimentando, possibilitando,
assim, que haja intensas fruições interlocutórias,
o que revela, acima de tudo, a nossa grandeza cultural.
Em “Diálogos Contemporâneos”
há, enfim, uma síntese expressiva que mostra como
o melhor de nossa sensibilidade cromática está
se relacionando com o entorno. E nesses momentos dá orgulho
de viver em Mato Grosso do Sul.
Dante Filho
Jornal Correio do Estado, novembro de 2004