Uma geração pouco crítica
Aracy Amaral, curadora – geral da exposição
Rumos Artes Visuais 2005 – 2006 – Paradoxos Brasil,
está convencida de que a nova geração de
artistas, selecionada pelo projeto de mapeamento nacional da
produção emergente, não lê jornal.
As obras, em sua maioria, acredita, são pouco críticas.
“Parece que eles não sabem que está havendo
uma guerra no Iraque, que existe uma crise no governo, que a
Europa está tomada pela segregação étnica
e social. Parece que estão vivendo fora da realidade”,
suspeita a curadora.
A política só não está
completamente ausente dos trabalhos desta nova geração,
segundo Aracy, porque muitos dos artistas selecionados utilizam
materiais precários, de descarte, na construção
de suas obras. “Todos parecem colher sua inspiração
nas bordas da sociedade capitalista, construindo a partir dos
restos e do lixo dessa sociedade. A periferia hoje é
a cidade e nós, da ´cidade`. É que vivemos
num gueto”.
Quase um terço dos 78 artistas ou grupos selecionados
trabalha com sucata tecnológica, refugos industriais
ou lixo midiático. A utilização desse tipo
de material é uma maneira de se referir à miséria
às mazelas nacionais e, portanto, politizar as propostas
artísticas apresentadas.
Marcone Moreira, por exemplo, reorganiza como “pintura”
restos de madeira de construção. Giuliano Montijo
exibe três de suas máquinas de pinball feitas com
sucata. Sérgio Bonilha criou dentro da exposição
um pequeno centro cultural, com vídeos e livros que podem
ser consultados, e um mobiliário que ele mesmo fez a
partir de madeira reciclada. Evandro Prado constrói um
precário oratório de madeira preenchido com referências
à sociedade de consumo a la Nelson Leirner. Sebastião
Marcos enfaixa seu conjunto escultórico com borracha
reutilizada, material que se esparrama também pelo entorno
da peça. Hugo Houayek cria pinturas a partir de lona
laranja. Fabrício Carvalho realiza esculturas com dejetos
de construções. A casa ambulante de Gaio, um abrigo
para se rutilizado em espaços públicos, também
é feita de refugos urbanos. Esses trabalhos, somados
aos vídeos, que reciclam lixo televisivo, e às
obras que reutilizam outros elementos prosaicos de osso cotidiano,
elevam para 25 o número de artistas operando nessa “tendência”.
Considerando a representatividade do projeto
Rumos, cabe perguntar o que significa esta predominância
no Brasil de obras que ultimamente vêm sendo reunidas
sob o guarda-chuva conceitual da “estética da gambiarra”?
A curadora geral questiona: “Seria uma circunstância
necessária com que os artistas brasileiros se deparam
para produzir, ou trabalhar com descarte tornou-se um maneirismo?”
A exposição não trás respostas afirma
Aracy Amaral. Ela reúne as indagações que
permearam a pesquisa e as contradições que marcam
a arte contemporânea brasileira, dó o subtítulo
da mostra “Paradoxos Brasil”.
“Entrei no projeto interessada em saber
o que estava acontecendo agora. Percebi que, no Brasil, convivem
vários tempos e que ele é uma espécie de
arquipélogo de ilhas que pouco se comunicam” Outra
constatação: “A arte sofreu um processo
de desmanche e contaminação por outros campos
– o vídeo, a literatura, a arquitetura, o design
– e hoje é um terreno movediço.”
Entre pessimismo e o fascínio, a crítica
e historiadora da arte, autora de estudos seminais sobre a arte
moderna brasileira, faz um balanço final do projeto:
“Desalento? Sim, um pouco. Mas existem grandes talentos
aí”
Por Juliana Monachesi
Revista Bien`art - nº 18 , abril de 2006