Fala Cidadão - por Evandro Prado, artista plástico
Esclarecimento
Eu, Evandro Prado, diante das acusações
de profanar imagens sagradas e outros signos representativos
da Igreja Católica, venho por meio desta carta, esclarecer
os conceitos presentes no meu trabalho, intitulado “Habemus
Cocam”. Quero deixar claro que meu objetivo nunca foi
afrontar, profanar ou blasfemar os ícones e símbolos
religiosos da Igreja Católica.
Primeiramente gostaria de me apresentar: Sou
Campo-grandense, tenho 20 anos e curso o 4º ano da Faculdade
de Artes Visuais na UFMS. Faço exposições
desde os 15 anos, já realizei outras 3 exposições
individuais aqui em Campo Grande, participei de mostras coletivas
e salões oficiais de artes plásticas, em Mato
Grosso do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro, Goiás,
Amapá, Pará e Mato Grosso, obtendo diversas premiações.
Em 2005 fui um dos 78 artistas de todo o Brasil
selecionados para o Programa Rumos Itaú Cultural –
Artes Visuais 2005/2006 dentre os 1342 inscritos, sendo selecionado
como único representante de MS. Essa mostra de arte tem
como objetivo mapear o melhor da arte contemporânea emergente
de todo o Brasil. Para esta exposição, a obra
selecionada foi Em casa de capitalista Coca-Cola é santa.
Essa obra tem o mesmo conceito da exposição que
acontece agora no MARCO, e da que já foi exposta em 2005
em Corumbá, durante o Festival da América do Sul.
A mostra do programa Rumos ainda seguirá de São
Paulo para o Rio de Janeiro e Goiás.
Minhas pinturas são fundamentadas teoricamente
por um texto de Frei Beto chamado Religião do Consumo
que foi publicado no Correio da Cidadania no primeiro semestre
de 2001. Neste texto, Frei Beto apresenta uma lista das 10 marcas
de produtos mais reconhecidas no mundo, dentre estes produtos
a Coca-Cola ocupa o primeiro lugar. E afirma que de acordo com
os organizadores desta pesquisa, pode-se constatar que “as
marcas são a nova religião. As pessoas se voltam
a elas em busca de sentido, elas possuem paixão e dinamismo
necessários para transformar o mundo e converter as pessoas
em sua maneira de pensar (...) nossa sociedade cultua certas
marcas como se fosse religião. Ela faz um culto à
mercadoria e ao dinheiro. As pessoas tem trocado seus valores.”
As pessoas têm valorizado e buscado suas respostas subjetivas
não mais na religião, mas no dinheiro, na mercadoria,
e não mais na igreja e sim no shopping. Meu trabalho
retrata essa troca de valores.
O que eu faço em minhas pinturas é
justamente representar plasticamente, em forma de arte, esse
pensamento. Quando troco o sagrado coração de
Jesus por uma latinha de refrigerante, quero mostrar que este
culto ao consumismo, à mercadoria, ao supérfluo
e ao dinheiro constitui o que Frei Beto chama de “religião
do consumo”. A mesma coisa vê-se na pintura que
mostra o Papa João Paulo II, que ao invés de ter
em suas mãos o seu terço, tem uma garrafinha de
Coca-Cola, por quê? Porque nossa sociedade de consumo
transforma tudo em mercadoria, inclusive os terços, as
imagens sacras, velas.
É acreditando na liberdade da criação
artística e na certeza que não ofendo nenhum princípio
religioso ao usar linguagem baseada em ícones disseminados
pela globalização da cultura contemporânea,
que ofereço-me para quaisquer outras elucidações
a respeito do meu trabalho.
Respeitosamente,
Evandro Prado
Artista Plástico
www.interiornews.com.br - 19 de maio de 2006