Artista gera polêmica entre católicos
Exposição relaciona religiosidade e consumo, para
a revolta dos mais conservadores
“Toda a polêmica em torno da exposição
só tem feito com que aumente o número de visitantes
ao museu, principalmente nos fins de semana”, avalia o
artista plástico Evandro Prado, que desde o dia 12 de
maio mantém 26 telas expostas no Museu de Arte Contemporânea
(Marco). De maneira irreverente, o artista traça o paralelo
sobre arte e publicidade; capitalismo e consumismo e religiosidade
e consumo, sendo este último o segmento de maior crítica
por parte dos católicos.
O Grupo Defesa Católica de Campo Grande
entende que a exposição, intitulada Habemus Cocam,
mostra profanação às imagens de Jesus Cristo,
da Virgem Maria, do Papa João Paulo II e outros símbolos
da Igreja Católica, e organiza abaixo-assinado como protesto.
Segundo o curador do museu Rafael Maldonado,
a seleção dos trabalhos dos artistas é
muito séria e feita com acompanhamento de críticos
de arte. “O trabalho do Evandro tem uma proposta pertinente,
pois discute questões atuais. É importante lembrar
que o trabalho é uma metáfora tratando dois grandes
poderes: o do mundo religioso e o do capitalista”, explica.
Ele ressalta que o artista acaba sendo um mediador
de percepções. “Não há, absolutamente
nada de agressivo ou profano no trabalho do Evandro, este entendimento
está simplesmente equivocado”, diz Maldonado.
MANIFESTO
Desde o dia 18 de maio, Evandro Prado recebe
e-mails de repúdio das obras. “Até ago-ra
já, recebi pelo menos 20. Eu acredito que todos têm
direito de se expressar, mas o que me deixa triste é
que muita gente sequer conhece o trabalho e reclama de ouvir
dizer”, diz.
Além dos e-mails de repúdio à
exposição, o artista também enfrenta resistências
de grupos cató1icos, como o Grupo Defesa Católica
de Campo Grande que organiza um abaixo-assinado em protesto
ao trabalho do artista. Até agora, dos quase 424 mil
católicos da Capital, 3 mil assinaram o documento.
Prado explica que no segmento que aborda a
religiosidade x consumo teve como base o texto do Frei Betto
“Religião e Consumo”. “Este segmento
trata exatamente disso. Do culto da sociedade à mercadoria,
ao produto. Hoje, é possível comprar um produto
religioso no mesmo local em que se compra um refrigerante”,
diz.
Todas as telas do artista estão expostas
no Marco, de terça a sexta-feira, das 12 à,s 18
horas, e sábados, domingos e feriados das 14 às
18 horas.
Christiane Reis
Jornal O Estado de MS - 23 de maio de 2006.