Censura ronda mostra de Evandro Prado em Campo Grande (MS)
Evandro Prado é um artista de Campo
Grande (MS), contemporâneo. No entanto, o que ele vive
atualmente parece mais uma cena de 500 anos atrás, faz
lembrar dos “feitos” da inquisição.
Prado abriu no dia 11 de maio a mostra “Habemus Cocam”
no Marco (Museu de Arte Contemporânea de Campo Grande),
onde fica em cartaz até 30 de junho, se a programação
for seguida. Isso porque, desde o início da exposição,
políticos e pessoas ligadas à igreja católica
querem a cancelar.
Em abril, o CCBB (Centro Cultural Banco do
Brasil) censurou a obra “Desenhando com Terços”,
da artista Márcia X (1959-2005), da exposição
“Erótica - Os Sentidos da Arte”. Uma só
notícia dessas já seria muito, mas são
logo duas histórias bastante semelhantes e em muito curto
período de tempo. Parece até que estamos em época
de ditadura militar.
O artista Evandro Prado apresenta no Marco,
por exemplo, uma lata de Coca-Cola no lugar de onde deveria
originalmente estar o sagrado coração de Jesus.
O trabalho é baseado em um texto de Frei Beto, que constata
que a nossa sociedade cultua certas marcas como se fosse religião
- ou seja, afirma que há um culto às mercadorias
e ao dinheiro. Vereadores, deputados estaduais e representantes
da igreja católica de Campo Grande não entenderam
assim a exibição, e querem acabar com ela.
Eles alegam que “Habemus Cocam”
profana a igreja católica. Um dos cabeças do repúdio
é o vereador Paulo Siufi (PRTB). Esses políticos
entram então na história como defensores dos valores
pregados pela igreja. Assim, Evandro Prado se meteu em um vespeiro.
O artista tem um trabalho da mesma série
(intitulado "Em Casa de Capitalista Coca-Cola é
Santa") selecionado pelo Rumos Itaú Cultural Artes
Visuais 2005-2006. O trabalho, também sobre a religião
do consumo e o culto ao consumismo, integra a exposição
“Paradoxos Brasil”, em cartaz no Itaú Cultural
até 28 de maio. O concorrido programa selecionou 78 artistas
de todo o Brasil, entre 1342 inscritos. A mostra segue depois
para Rio de Janeiro (RJ) e Goiânia (GO).
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O “Mapa das Artes” tentou falar com o vereador Siufi
e com o artista em 24 de maio, por e-mail. Evandro respondeu
de imediato; a resposta do vereador ainda não foi enviada.
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Veja a íntegra da declaração
de Evandro Prado:
“Desde que foi aberta minha exposição
no Marco - Museu de Arte Contemporânea de Campo Grande,
dia 11 de maio, onde estou expondo cerca de 21 pinturas e 12
objetos, grupos ligados à igreja católica, vereadores
e agora até mesmo deputados estaduais têm feito
movimentos a fim de cancelar a exposição. Já
foi colocada na pauta da Câmara dos Vereadores uma moção
de repúdio na semana passada, e nesta semana, uma moção
de protesto na Assembléia Legislativa de Mato-Grosso
do Sul. Nenhuma das duas ainda foi votada. Essas pessoas também
circulam com um abaixo-assinado contra a exposição
pedindo o cancelamento da mesma, abaixo-assinado este que vem
sendo assinado por pessoas que não viram a exposição
ou mesmo que nem conhecem o trabalho que estão repudiando.
Os organizadores afirmam já ter cerca de 3 mil assinaturas.
E, por último, ainda prometem ingressar com ações
na Justiça pedindo o cancelamento da mostra, com ação
criminal contra mim, por estar desrespeitando publicamente um
ícone religioso. E, como se não bastasse, ainda
querem acionar a Coca-Cola para que ela também me processe
por estar usando a logomarca sem autorização.
Tenho enfrentado toda essa turbulência com muita tranqüilidade.
Mas vejo que a coisa tem ganhado cada vez maior proporção,
com base em algo que não é uma crítica
à igreja. Meu trabalho é muito mais uma crítica
social e política. Isso mostra a ignorância das
lideranças de Campo Grande, que não têm
conhecimento sobre a arte que repudiam. No meu site, www.evandroprado.com.br,
tem na seção notícias todas as últimas
notas que saíram na imprensa local; na seção
textos há alguns textos que já recebi de apoio;
e na seção galeria estão as fotos dos trabalhos
polêmicos”.
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Leia o histórico da censura à obra de Márcia
X no CCBB do Rio:
Em abril, o CCBB do Rio também envergonhou
a comunidade artística ao retirar a obra “Desenhando
com Terços”, da artista Márcia X (1959-2005),
da exposição “Erótica - Os Sentidos
da Arte”. Em vez de lutar pela liberdade de expressão,
a instituição preferiu ceder à pressão
de fanáticos religiosos.
O que o CCBB não esperava era a manifestação
indignada de artistas (que organizaram um protesto no próprio
centro cultural) e da mídia (que deu ampla cobertura
ao ocorrido). A obra apresenta dois pênis cruzados feitos
com terços religiosos.
A direção do CCBB retirou a obra
depois que o empresário e ex-deputado Carlos Dias Filho
(PTB) registrou uma queixa-crime contra os organizadores da
mostra no 1º Distrito Policial do Rio, na qual diz que
o trabalho é uma afronta à fé católica.
Representantes da igreja católica também se revoltaram
com a obra.
A realização de “Erótica” no
CCBB de Brasília foi cancelada devido ao impasse.
http://www.mapadasartes.com.br (25 de maio/2006)