"Habemus papam", mas nem tanto...
Não fui ver a exposição
de Evandro Prado, no Marco, intitulada "Habemus Cocam",
cujas obras foram selecionadas para o 6º Salão Nacional
de Arte de Goiás, e, dias atrás, andou provocando
polêmica por conta da reação de grupos religiosos
que viram nas telas um desrespeito àqueles que professam
fé em cristo, ajoelham aos pés de padres e papam
hóstia com alegria e sofreguidão.
As fotos de alguns quadros expostos me foram
enviadas pela Internet. Não gosto de avaliar obras de
arte olhando apenas suas reproduções fotográficas.
Tirando os trabalhos consagrados, só mesmo estando frente
a frente para analisar a técnica, a qualidade do material
utilizado, a narrativa emblemática do artista na composição
do quadro, sua força imagética e sua proposta
estética.
Neste aspecto, só posso dizer que a
pop-art de Prado inscreve-se no convencionalismo da arte figurativa
moderna, apenas tematizando imagens sagradas de maneira irônica
e divertida, incorporando símbolos religiosos no estuário
dos conceitos das mercadorias e do consumismo hedonista dos
nossos tempos.
Além disso, os trabalhos fazem uma releitura
própria da tradição estética, brincando
com algumas obras famosas, como se quisessem dessacralizar a
arte fazendo comédia com cenas sacras consagradas. Tudo
dentro do previsto. Mesmo assim, me pareceu um trabalho bonito
e instigante.
Neste jogo de representação dentro
da representação, o trabalho de Evandro pode até
ser interessante.
Se as artes plásticas ainda estivessem
no meu foco de interesse – e museus não me causassem
tanta modorra – juro que daria um pulo no Marco para conferir
as telas de perto.
Mas o que me entedia é o lance do "faça
sucesso provocando escândalo" que está embalando
a carreira de Evandro.
Talvez sua produção mereça
mesmo toda a consideração do mundo, mas este movimento
de fundamentalistas (capitaneado pelo vereador Paulo Siufi)
que se arroga detentor do puritanismo cristão incomoda
até quem tem uma visão complacente da religiosidade
de cada um.
Não vi nenhuma agressão ou desrepeito
à crença cristã como alguns estão
alegando. Se fosse para levar as coisas para este lado, católicos
e protestantes deviam ter feito passeata em frente aos cinemas
quando Mell Gibson levou às telas aquela cretinice medonha
sob o título de "A Paixão de Cristo",
que, na minha modesta opinião, foi a maior propaganda
de ketchup já feita na história contemporânea.
Ninguém reclamou. Ao contrário:
milhares de fiéis lotaram as salas para derramar lágrimas
copiosas e patéticas, sem perceber o merchandising embutido
numa produção que, na verdade, por exagerar na
paródia, ganhou status de comédia de horror.
Diante daquele filme, a exposição
de Evandro é pueril. Ali temos a beleza transfigurante
numa revisão conceitural da nova idéia religiosa
de que tudo pode ser consumido na cloaca da pós-modernidade.
No dia que aqueles religiosos mais fervorosos
compreenderem que a fé é simplesmente uma categoria
da existência que está encerrada em propósitos
estritamente individuais, e que toda a ação coletiva
em torno da religiosidade tende ao fanatismo mais abjeto e perigoso,
nada que se faça para bagunçar o coreto do sistema
de crenças terá qualquer relevância.
Enquanto malucos de todos os gêneros
acreditarem que serão salvos no reino dos céus
por contestarem furiosamente uma charge cretina de Maomé,
um quadro chocante, um filme maluco, um livro herético
ou espetáculo teatral ateu, sempre existirá um
espírito de porco acreditando na possibilidade de libertação
pela subversão das idéias postas e consagradas.
O homem é um ser insatisfeito por natureza.
Somos o único animal que consegue rir de suas próprias
misérias. Já vivemos um tempo em que contestar
o sagrado era o caminho mais rápido para ser transformado
em churrasco na fogueira da intolerância.
Agora, nestes tempos trêfegos o fogo
que maltrata um artista é a indiferença. Ou nos
rendemos aos homens pela beleza de sua criação,
ou, em último caso, pela repulsa que provoca suas idéias
e propostas estéticas. Proibir, censurar, matar e esfolar
é atitude que além de desumanizar aqueles que
reagem negativamente à arte, transforma seus protagonistas
em asnos. Nada mais.
Dante Filho
05 de Junho de 2006 - Jornal Correio do Estado