Polêmica no mundo das artes
A série “Habemus Cocam”,
do artista plástico Evandro Prado, exposta no Marco desde
o dia 11 de maio, causa revolta entre católicos
Depois que “O Código Da Vinci”,
de Dan Brown, saltou da literatura, como o maior best-seller
dos últimos anos, para o cinema, como o filme mais esperado
de 2006, os católicos não tinham idéia
das ousadias que estariam por vir no mundo das artes.
Em outro museu – não o do Louvre,
em Paris, local que guarda os segredos da vida de Jesus, revelados
no livro de Brown, mas o de Arte Contemporânea, em Campo
Grande (MS) – está exposta desde o dia 11 de maio,
a mostra “Habemus Cocam”, de Evandro Prado, 20,
causadora de polêmica e revolta entre os católicos
da Capital.
No dia 17 de maio, o vereador Paulo Siufi (PRTB),
usou a tribuna, durante sessão na Câmara Municipal,
para manifestar repúdio contra a série “A
Religião do Consumo”, que integra a obra "Habemus
Cocam”, do estudante do 4º ano de Artes Visuais.
A justificativa é que as telas do jovem artista ofendem
ícones sagrados da igreja e afrontam a instituição.
Apoiado por outros vereadores e por membros da Igreja presentes
na sessão, Siufi pediu o cancelamento da exposição
e ameaçou fazer uma Moção de Repúdio
à obra, dizendo que “a exposição
ultrapassa os limites da liberdade de expressão”.
Entre as imagens que têm causado revolta,
está a pintura do funeral do papa João Paulo II,
onde aparece a inscrição “Habemus Cocam”,
em referência à frase “Habemus Papam”
(Temos Papa), pronunciada quando é eleito um novo pontífice.
Sem “licença religiosa”, o artista substituiu
o terço que, originalmente está envolvido nas
mãos do papa, por uma garrafa de Coca-Cola.
IGREIA CATÓLICA – Para o padre
Mário Panziero, que participou da sessão na Câmara,
a exposição é um ultraje aos símbolos
da igreja, “É como se usássemos a Bandeira
do Brasil, símbolo nacional, como um pano velho para
limpar a mesa”. Pe. Panziero disse que não visitou
a exposição, mas viu o trabalho de Prado através
de fotografias, “Não se trata de castigar, mas
de retirar as obras do local”, defende. “A arte
é a expressão do sentimento. Essa expressão
não pode ultrajar ninguém”.
No dia 26 de maio, o arcebispo de Campo Grande,
dom Vitório Pavanello, manifestou-se sobre a exposição
através de oficio, "O artista, na intenção
de corrigir ou atacar o consumismo reinante na sociedade atual,
usou de meios ilícitos para criticar uma sociedade consumista.
Há muitos outros meios para atacar os abusos provocados
pelo consumo excessivo. A própria Igreja desaprova o
consumismo”. Outro alvo das críticas do arcebispo
foi o governo do Estado, por ter cedido espaço para a
exposição.
Evandro diz que é batizado na Igreja
Católica e fez Primeira Comunhão. Apesar de não
freqüentar a igreja, afirma que é cristão
e acredita em Deus. "Tenho uma ligação muito
forte com os símbolos religiosos. São ícones
muito bonitos. Não poderia falar do tema, utilizando
outros símbolos”, esclarece.
Seus primeiros trabalhos, como Cuba Libre,
são anteriores à “Religião do Consumo”,
que é um termo utilizado por Frei Betto, em um artigo
no qual faz uma critica ao consumismo. Ele buscou na dialética
marxista, a essência contraditória presente em
cada uma de suas obras. A união de elementos contrários
entre si é comum nos três segmentos de seu trabalho.
“As marcas constituem uma nova religião”,
escreve Frei Betto, Afirmação que inspirou Prado
nas obras que estão expostas no Marco. Seu objetivo é
levar o público à reflexão sobre a troca
de valores da sociedade capitalista.
“As obras podem causar surpresas boas
ou ruins, principalmente porque utilizam ícones religiosos.
Se alguém não gostar, ótimo. É sinal
de que cumpri meu papel", explica.
A mostra "Habemus Cocam” foi selecionada
para ficar exposta, até o fim do ano, na Casa da Cultura
da América Latina, que fica na galeria da Universidade
de Brasília (UNB), Procurado pela reportagem, o diretor
de marketing da Coca-Cola, em Campo Grande, Flávio Freitas,
preferiu não se manifestar sobre o assunto.
RELIGIÃO COCA-COLA – As obras
sobre religião e consumo estão inseridas num contexto
de 21 pinturas e 13 objetos, que incluem montagens e gravuras,
Nas outras duas séries (Comunismo e Capitalismo, Publicidade
e Arte), o artista também explora a plasticidade da Coca-Cola.
"Escolho o refrigerante para ser o símbolo do capitalismo
e do consumismo. Ele dá unidade às séries”,
diz Prado,
No artigo de Frei Betto, que serviu de inspiração
para o artista, há uma relação das principais
marcas do mundo, na qual a Coca-Cola é a mais reconhecida.
“Os realizadores da pesquisa constataram que as marcas
se tornaram uma religião, porque as pessoas passaram
a se voltar para os produtos em busca de respostas que antes
buscavam na religião", explica o artista.
Prado também faz uma interlocução
com obras de Salvador Dali, Pablo Picasso e Michelangelo. Na
série Publicidade e Arte, o quadro "Guernica”,
de Picasso, que retrata a Guerra Civil Espanhola, é utilizado
por Prado de maneira fragmentada, “Contraponho a realidade
denunciada pela guerra com mensagens da Coca-Cola que dizem.
“Viva o que é bom”. Bom para quem? Será
que o mundo está mesmo bom e temos de viver só
o que é bom e esquecer o resto, esquecer as desigualdades.
Esquecer que 90% do que é produzido no mundo é
consumido apenas por 10% da população?”,
indaga.
Diante das críticas, Prado disse que
não fez nada de errado. “Algumas pessoas não
entenderam meu trabalho. Acho que deveriam visitar a exposição
para ver as outras séries que, juntas, se completam”.
LIBERDADE DE EXPRESSÃO – O curador
do Marco, Rafael Maldonado, vê como normal a reação
de católicos ao trabalho de Evandro Prado, mas para ele,
quem está se manifestando contra, não conhece
todo o contexto da obra do artista. "O trabalho dele é
inteligente, atual e faz as pessoas refletirem, É um
artista reconhecido, que tem o respaldo da crítica nacional
e da classe artística".
Sobre a afirmação de Siufi de
que Prado “ultrapassou os limites da liberdade de expressão",
Maldonado responde que é complicado restringir o pensamento
e a expressão do artista no território da arte
e, que para isso, existem espaços como museus, que servem
para legitimar a arte, “Ao contrário do vereador,
respeitamos o direito que ele tem de se expressar, Muitas agressões
verbais foram feitas por ele, em relação ao trabalho
do Evandro”, afirma.
Para o artista plástico Humberto Espíndola,
que teve obras censuradas durante o período em que o
Brasil viveu sob o regime militar, a tentativa de censurar as
obras de Evandro, é um retrocesso. “A arte é
um espaço de liberdade e de manifestação.
Na democracia, a liberdade de expressão está acima
de qualquer coisa, Se tiver brechas legais para reprimir, precisam
ser revistas”, questiona Espíndola,
No entanto, a polêmica só serviu
para divulgar ainda mais o trabalho do campo-grandense. No começo
de junho, Evandro Prado foi escolhido, na categoria Instalação,
junto com mais 29 artistas, entre os mais de 1,3 mil inscritos
de todo o Brasil, para expor no 6º Salão Nacional
de Arte – Prêmio Flamboyant, que acontece em Goiânia
(GO). A exposição será de 15 de julho a
6 de agosto.
Érica Franzon
Revista Metrópole, nº 83 (Pág. 20 à
23) – junho de 2006
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