Sagrado Profano
Arcebispo não conseguiu censurar Mostra de Arte
A igreja foi através dos tempos, um
mecenas das artes. Mesmo assim, depois de não mais conseguir
impor sua moralidade ocasionada pela separação
do estado, continuou cultuando seus acervos, que de tão
valiosos sequer possuem preços, por isso, guindados à
condição de tesouros da humanidade.
Conta-se, que por ocasião da pintura
da Capela Sistina, Michelângelo era freqüentemente
aporrinhado por um cardeal que achava sua pintura feia, imprópria
para figurar na Capela, iniciando uma perseguição
mesquinha ao artista. Quase ao final da pintura da Arca que
o diabo levava os condenados para o inferno, o dito perseguidor
reconheceu-se entre as almas penadas.
Aflito, foi falar ao Papa, implorando para
que Michelângelo o tirasse da arca. O sumo Pontífice
simplesmente ignorou o pedido dizendo ao cardeal “fosse
se entende com o artista”, que em represália não
o poupou, imortalizando-o como passageiro.
Esta semana, a arte de Evandro Prado foi duramente
criticada pelo arcebispo Dom Vitório Pavanello, especialmente
depois que o juiz Fernando Paes de Campos, da Comarca de Campo
Grande, extinguiu a ação protocada pelo arcebispo
que exigia o seqüestro, prisão dos bens, destruição
dos quadros e proibição de “obras similares
da mesma objetividade”.
Dom Vitório havia descoberto a censura,
indo em direção oposta à manifestação
livre do pensamento garantida pela Constituição
do Brasil.
A Mostra “Habemus Cocam” inclui
várias obras com símbolos sagrados, misturando-os
à Coca-Cola. O artista não poderia esperar maior
benção lhe descesse tão rapidamente sobre
a Mostra. Ganhou espaços nas rádios, tevês,
jornais e revistas. Aliás o “Boca do Povo”
já havia comentado o assunto em edições
anteriores, mas não esperávamos que a repercussão
chegasse a ponto de que fosse solicitada sua proibição.
Na verdade, o pecado está sobre que
vê. Os maiores críticos de arte do Estado inocentaram
o autor, concluído que ele criticar o consumismo, pegando
um dos símbolos mais conhecidos do consumo moderno, a
Coca-Cola, e aliando-o ao pecado da luxúria, gastança
e consumo, utilizando para causar impacto, símbolos sagrados.
O arcebispo não conseguiu impedir a
Mostra, mas deu a ela a publicidade que necessitava para revesti-la
da importância que não possuía. A Mostra
pode ser visitada no Marco, até o dia 30 deste mês,
ou pela Internet no site www.evandroprado.com.br.
Jornal Boca do Povo
Domingo, 25 de junho de 2006.