Religião e meio ambiente juntos
Há cerca de um ano, o artista plástico
Evandro Prado viu suas produções ganharem atenção
inédita. A proposta de colocar símbolos religiosos,
mais especificamente da Igreja Católica, ao lado de elementos
da cultura de massa ultrapassou a apreciação artística
e repercutiu polemicamente. Segundo Evandro, dois processos
foram abertos pela Arquidiocese de Campo Grande contra ele por
causa das criações presentes na exposição
"Habemus cocam", que aconteceu no Marco. "Fui
acusado de vilipêndio à imagem sacra, mas não
era nada disso, tanto que os processos já foram arquivados.
Minha intenção não foi agredir ninguém",
diz.
Mesmo com toda polêmica, o artista não
foge aos ícones religiosos para produzir suas obras.
Isso pode ser observado na exposição "Fé
na tábua", em cartaz na Galeria do Sesc Horto (Rua
Anhanduí, 200) até o fim de junho. O artista faz
questão de esclarecer que as obras mostradas agora foram
feitas antes daquelas que fizeram parte da "Habemus cocam".
"Essa série fiz entre 2003/2004 e destaco imagens
religiosas de forma não corriqueira".
O convite para que ele expusesse partiu do
Sesc e tinha como mote obras relacionadas ao meio ambiente.
"A ligação com o tema se deve ao fato de
utilizar madeiras antigas, que não tinham mais utilidade,
num trabalho de reciclagem", explica Evandro. Os trabalhos,
denominados assemblages (colagens, em francês), foram
realizados em madeira, com tinta e colagens de santinhos religiosos
e também políticos, assim como terços e
velas derretidas.
Aliando elementos de apresentação
e representação, o artista apresenta a fé
popular e a religiosidade de uma sociedade rural e ingênua.
Mesmo com pouca idade, 21 anos, Evandro é
um dos artistas com maior repercussão fora do Estado,
tendo exposto em Brasília, Rio de Janeiro, São
Paulo, Mato Grosso, Amapá, entre outros. "No caso
de ‘Habemus cocam’, também aconteceu em Brasília,
mas lá não teve a mesma polêmica vista em
Campo Grande".
Sobre os novos trabalhos que planeja, afirma
que voltará aos temas religiosos. "Não sei
explicar por que essas imagens têm grande força
sobre mim. Acho-as poderosas", descreve.
Oscar Rocha
Jornal Correio do Estado, 08 de junho de 2007.