Entrevista com o artista plástico
Evandro Prado
“Hoje é destinado
apenas 0,002% dos orçamentos, o que é uma quantia
irrisória. Como esse percentual é dividido com
os outros setores, as artes plásticas praticamente ficam
sem nada”.
“Infelizmente tem sido
pratica dos governantes destinarem à cultura aquilo que
“sobra”. Foi assim no Camelódromo.A estrutura
do prédio tem um piso superior que não era freqüentado
pelos consumidores, gerando reclamação dos comerciantes.
O que fizeram? Criaram um espaço para exposições
que ninguém vê”.
“Sou a favor
das leis de incentivo. No caso da lei estadual o valor é
razoável, mas o da lei municipal ( R$ 250.000,00) é
pífio. O teto de 15 mil para cada projeto também
é muito baixo. Qualquer asfalto de rua soma essa quantia”.
“Quando troco o sagrado
coração de Jesus por uma latinha de refrigerante,
quero mostrar que este culto ao consumismo, à mercadoria,
ao supérfluo e ao dinheiro constitui o que Frei Beto
chama de “religião do consumo”.
“Isso é
um absurdo. Coloca-se quatro ou cinco obras no gabinete do prefeito,
que serão vistas apenas por ele e seus convidados para
audiências. Em vez de montarem um acervo, adquirindo obras
dos artistas, usam suas obras como decoração gratuita,
já que o artista nada ganha”.
Qual a sua opinião sobre os
espaços de conservação e exposição
de artes plásticas existentes em Campo Grande?
De um modo geral os espaços são bons, como no
caso do Marco, que considero o melhor espaço da cidade.
Foi um local construído com essa finalidade e que dispõe
de uma área climatizada para abrigar o acervo. Há
um problema estrutural de gotejamento, que segundo o governo
será resolvido este ano. Os demais lugares foram adaptados,
como a Morada dos Baís e o antigo Fórum. Não
ficaram galerias 100%, mas as adaptações que vem
sendo feitas podem resolver os problemas estruturais localizados.
E quanto a recursos para este setor
específico da produção cultural?
Esse é o grande “gargalo”. No caso do poder
público o máximo que oferecem é o espaço
e os convites, cabendo ao artista “se virar”. Se
quiser fazer uma vernissage ou algo do gênero tem que
arcar com os custos. Sou a favor que o estado destine mais recursos
para o setor no orçamento.Hoje é destinado apenas
0,002%, que é uma quantia irrisória. Como esse
percentual é dividido com os outros setores, as artes
plásticas praticamente ficam sem nada.
O prefeito Nelsinho Trad tem anunciado
a transformação de vários locais em centros
culturais, como é o caso das obras inacabadas da rodoviária,
no bairro Cabreúva. O que você acha dessas iniciativas?
Infelizmente tem sido pratica dos governantes destinarem à
cultura aquilo que “sobra”. Foi assim no Camelódromo.
A estrutura do prédio tem um piso superior que não
era freqüentado pelos consumidores, gerando reclamação
dos comerciantes. O que fizeram? Criaram um espaço para
exposições que ninguém vê. No caso
do espaço no Cabréuva quem vai ganhar é
a indústria da construção civil. Os espaços
ficam bonitos, bacanas, mas não são injetados
os recursos necessários para que cumpram suas finalidades,
que são louváveis.
Como você vê as leis de
incentivo? Já foi beneficiado por alguma?
Sou a favor das leis de incentivo. No caso da lei estadual o
valor é razoável mas o da lei municipal ( R$ 250.000,00)
é pífio. O teto de 15 mil para cada projeto também
é muito baixo. Qualquer asfalto de rua soma essa quantia.É
uma questão de prioridades.No caso do estado após
três anos sem os recursos finalmente serãoliberados.Mas
será de apenas 1 milhão, valor bem menor do que
quando foi criado, que girava em torno de 3 milhões.
Apesar dos eventuais problemas, é um bom mecanismo.Os
problemas podem ser sanados com uma fiscalização
mais rigorosa na aplicação.
Qual a sua religião?
Não tenho religião.Não acredito que alguém
consiga representar o Ser Superior.
Você recebeu algo da Coca Cola
para fazer a exposição Habemos Cocam, que causou
polêmica (e processo, depois arquivado) com a igreja católica?
Não e nem gostaria de receber. Não faço
arte patrocinada. No caso da série Habemus Cocam as pinturas
são fundamentadas teoricamente por um texto de Frei Beto
chamado Religião do Consumo que foi publicado no Correio
da Cidadania no primeiro semestre de 2001. Neste texto, Frei
Beto apresenta uma lista das 10 marcas de produtos mais reconhecidas
no mundo, dentre estes produtos a Coca-Cola ocupa o primeiro
lugar. E afirma que de acordo com os organizadores desta pesquisa,
pode-se constatar que “as marcas são a nova religião.
As pessoas se voltam a elas em busca de sentido, elas possuem
paixão e dinamismo necessários para transformar
o mundo e converter as pessoas em sua maneira de pensar (...)
nossa sociedade cultua certas marcas como se fosse religião.
Ela faz um culto à mercadoria e ao dinheiro. As pessoas
tem trocado seus valores.” As pessoas têm valorizado
e buscado suas respostas subjetivas não mais na religião,
mas no dinheiro, na mercadoria, e não mais na igreja
e sim no shopping. Meu trabalho retrata essa troca de valores.
O que eu fiz em minhas pinturas foi justamente representar plasticamente,
em forma de arte, esse pensamento. Quando troco o sagrado coração
de Jesus por uma latinha de refrigerante, quero mostrar que
este culto ao consumismo, à mercadoria, ao supérfluo
e ao dinheiro constitui o que Frei Beto chama de “religião
do consumo”. A mesma coisa vê-se na pintura que
mostra o Papa João Paulo II, que ao invés de ter
em suas mãos o seu terço, tem uma garrafinha de
Coca-Cola, por quê? Porque nossa sociedade de consumo
transforma tudo em mercadoria, inclusive os terços, as
imagens sacras, velas.
Além da ira do arcebispo, que
propôs a destruição das obras, como foi
a receptividade à exposição?
Foi muito boa. As pessoas foram ver, conversaram comigo. O que
lamento foi o tom irado que recebi por e-mails, de pessoas que
assim como o arcebispo não entenderam a mensagem e quiseram
punir mensageiro.Aliás, o arcebispo não foi ver
a exposição.
Você vive/sobrevive da arte?
Sim. Além de artista eu sou professor de arte, de modo
que posso dizer que sobrevivo da arte.Dou aulas em uma escola
regular e produzo artes plásticas.
Há uma visão predominante
de que alguns setores da produção artística,
incluída aí as artes plásticas, são
demasiadamente “elitizados”. Qual a sua opinião
sobre o assunto?
Se não tiver recursos a coisa não vai. Veja-se
o caspo, guardadas as proporções, de São
Paulo, onde as exposições são vistas por
até um milhão de pessoas. São exposições
bem feitas, “trabalhadas” na mídia, com obras
de artistas renomados para despertar o interesse ( e a freqüência)
do público. Não há quem não queira,
mesmo leigo no assunto, ver um quadro de Portinari ou de Picasso.
Como não ser elitista se os espaços, como o Marco,
não oferecem linhas de ônibus? É o mínimo
para que a população lá do conjunto José
Abraão, por exemplo, possa freqüentar....
Você acha que a atual estrutura
governamental (Fundação de Cultura) cumpre a missão
de fomentar a produção cultural ou deve ser ampliada,
com a criação de uma secretaria específica?
Penso que a Fundação de Cultura pode cumprir esse
papel. Mas voltamos à tecla dos recursos. Não
se sabe porquê a Fundação deixou hámais
de 10 anos de realizar os salões de ates plásticas,
deixando “órfã” uma geração
de artistas que nunca participou de um evento local desse porte.
É algo inadmissível. Assim como faz–se concursos
de fanfarra, mostras de dança ou festival de teatro as
artes plásticas também merecem atenção.
É uma área marginalizada pelas políticas
oficiais.
No gabinete do prefeito há um
espaço para exposições...
Isso é um absurdo. Coloca-se quatro ou cinco obras no
gabinete do prefeito, que serão vistas apenas por ele
e seus convidados para audiências. É o resultado
da falta de um programa, de um cronograma de ações.
Em vez de montarem um acervo, adquirindo obras dos artistas,
usam suas obras como decoração gratuita, já
que o artista nada ganha.
da redação
Site Jornal da Cidade (www.jornaldacidadeonline.com.br)-
27 de janeiro de 2008