Portal MS Entrevista Evandro Prado
Evandro Prado tem 22
anos e um currículo
de causar inveja em muitos artistas. Ele já foi
selecionado para participar do Rumos itaú Cultural
e Salão
nacional de arte de Goiás e foi escolhido agora
para participar do 59º Salão de Abril em
Fortaleza, o único representante do Centro Oeste.
Seus quadros são conhecidos pelas polêmicas
que causaram, mas ele garante que a única coisa
que quer é provocar a sociedade.
Portal MS: Por que você teve interesse em
fazer arte?
Eu sempre gostei de arte desde muito novo, ainda sou novo.
Desde muito pequeno, não eu sou pequeno (risos).
Desde muito criança. Eu comecei a fazer aulas de
pinturas com uns 12 anos, depois veio a faculdade que eu
quis fazer de arte e hoje eu sobrevivo disto. Dizem que
arte a gente não escolhe fazer, já está dentro
da pessoa.
Portal MS: O seu estilo de pintar veio das técnicas
que aprendeu na faculdade?
Na realidade não, eu fui buscar fora da faculdade,
lendo livros, indo à exposições
de artistas. A faculdade ajuda sim, mas não foi
ela que deu o meu estilo.
Portal MS: Você fez exposições
polêmicas, por que isto?
Mas elas não eram para ser polêmicas, eu
nem imaginava que ia acontecer isto. Pode até ter
sido ingenuidade minha, mas não espera tudo que
ocorreu. Processo, críticas vindas da Igreja, artistas
dizendo que só quero aparecer, políticos
querendo interromper minha exposição. Eu
não quero criticar a Igreja.
Portal MS: Mas como você achava que não
ia dar polêmica um quadro usando a coca cola, política
e a igreja?
Eu não esperava mesmo. Quando eu comecei a pintar
amigos meus viam os quadros e achavam bons, mas chocantes
e fortes. Mas assim que eu explicava o que o quadro queria
dizer acaba a polêmica e o espanto. Então,
quando veio toda a repercussão foi inesperado.
Portal MS: Por que você escolheu temas
como político, o religioso e para representar
a industrialização escolheu a coca cola?
São influências que eu sempre tive. Eu sempre
achei a iconografia católica muito bonita,
imagens de santos, a coisa do sagrado, sempre mexeu muito
comigo. Adorava ir nas igrejas, ir em cemitérios
ver os túmulos, achava lindo aquelas coisas. A estética
do sagrado, a estética da igreja católica
sempre me chamou muito atenção. Com relação
a política, eu sempre gostei, desde muito jovem.
Adoro assistir horário político, desde os
sete anos de idade eu assisto. E a política,
quando eu coloco questões ligadas ao socialismo,
o capitalismo, são assuntos que me interessam muito,
que eu gosto de ler. São as minhas influências
estes temas. As pessoas perguntam muito porque eu faço
esses temas de igrejas, quando é que eu vou mudar
meus temas. Eu não estou falando sobre a igreja
em si, eu uso essa iconografia católica para representar
a nossa sociedade, uma sociedade cristã, a maioria
dos brasileiros são católicos. Então,
na verdade meu trabalho não fala da igreja, nem
do catolicismo, o catolicismo vem como símbolo dessa
sociedade. Quando eu fiz a série "Habemus Cocam" eu
não estava falando nem da igreja, nem da coca, eu
estou falando do consumismo, mas eu uso esta simbologia
para falar de outra coisa, uso a simbologia para chamar
a atenção. Através destes símbolos
que todos reconhecem, das imagens tão literais como
um papa morto segurando uma garrafa de coca, são
imagens que não vão passar desapercebidas
para as pessoas. Elas vão parar e prestar atenção
no que é aquilo. É isto que eu quero, chamar
a atenção das pessoas, provocá las,
quero que vejam meu trabalho e não esqueçam
que elas viram.
Portal MS: O que sua família acha dos seus
quadros?
No começo ninguém curtiu a idéia.
Essa série do "Habemus Cocam", o quadro do papa,
foi assim; o papa morreu em abril de 2005 e aquilo me chamou
muito a atenção. Eu já estava fazendo
a série e me chamou muito a atenção
aquele velório do papa, porque eu tenho interesse
na estética. Então, eu ficava assistindo
as imagens, salvei muitas imagens pela internet e eu pensei
comigo que eu precisava fazer um trabalho com esta imagem
do papa. E veio a idéia de fazer o papa segurando
uma garrafa da coca no lugar do terço, porque o
terço e a coca não tem diferenças,
desde que compradas como mercadorias, dentro do capitalismo é tudo
produzido industrialmente, é tudo mercadoria e se
você quiser tem que comprar. Enfim, eu queria fazer
este jogo e dentro da estética me interessava a
imagem do papa morto. Eu tive essa idéia e comecei
a comentar com a família, eu falei no carro, com
meu pai, mãe e irmão e todo mundo falou você está louco,
não vai fazer de jeito nenhum, isto é uma
falta de respeito. Mas eu disse que faria sim. Demorei
para fazer ele, mas eu fiquei felicíssimo, achei
ele lindo. Depois meu irmão começou a curtir
a idéia, meu pai foi aceitando e minha mãe
simplesmente falou "tira este defunto da minha sala". Ela
não gosta do quadro até hoje.
Portal MS: Qual era a reação das
pessoas quando elas chegavam para ver sua exposição?
Dependia. Muitas pessoas jovens adoraram o trabalho. O
museu foi muito visitado na época, aumentou cinco
vezes a circulação de pessoas nele, grupos
de estudantes, universitários, acharam interessante o
trabalho. A repercussão negativa foi dentro da comunidade
católica mesmo, das pessoas que não viram
a exposição, mas que ouviram falar, ou viram
na TV e plantaram uma idéia negativa sobre aquilo.
Então as pessoas não estavam dispostas a
ouvir o significado, elas já não gostavam.
Algumas pessoas que foram viram e não gostaram,
mas aí eu fico sabendo por outras pessoas que ouviram
donas falarem "vamos sair desta sala que ela é um
inferno". Eu também já fiz exposições
que eu deixei aquele caderno de visita e já vi recados
do tipo "vai para o inferno seu demônio" e nesta época
eu recebi muitos emails de pessoas me chamando até de
anti cristo, muitas pessoas achavam que eu era evangélico
por isto eu estava "zuando" com o catolicismo. Na política
teve o vereador Paulo Siufi, que pediu o cancelamento
da exposição, vários vereadores apoiaram,
mas felizmente não aconteceu, a exposição
durou o que deveria durar e foi um sucesso de público.
Portal MS: Como você recebe as críticas
que fazer ao seu trabalho?
Eu sou muito tranqüilo, eu como já passei
por tudo isto, acabei acostumando a receber as críticas.
Até porque o meu professor de pintura era muito
crítico e as piores críticas eu ouvia dele.
Então as críticas que os outros fazem quando
não gostam, para mim já é fixinha,
eu já estava acostumado com críticas muito
piores.
Portal MS: E o que seu professor de pintura
achou do seu trabalho?
(risos) Ele adorou, mas antes disto, se ele não
gostava, ele era super crítico, falava "isto aqui
está tudo errado", "joga branco", "pinta por cima", "joga
fora", "põe fogo", falava de uma maneira muito firme.
Portal MS: Seus quadros são bastante vendidos
ou as pessoas acham tão polêmicos que não
querem ter em casa?
É muito engraçado isto, as pessoas realmente
falam isto "ah, esse quadro aqui eu acho lindo, mas eu
não colocaria na parede da minha sala". Eu ouço
muito isto, não é um trabalho muito fácil
de vender. Eu penso que eu vendo razoavelmente bem. Não
dá para colocar um quadro para vender muito barato,
porque eu já tenho um currículo que
me ajuda a dar um valor. Eu penso que meu trabalho, comparado
com outros artistas e currículos, é barato
ainda.
Portal MS: Qual foi seu primeiro pensamento,
sua reação quando ficou sabendo que foi
um dos escolhidos para participar do Salão de
Abril em Fortaleza?
Eu fui o único escolhido do Centro Oeste. É uma
alegria muito grande, eu fico muito feliz quando acontecem
estas seleções e meu trabalho é selecionado,
primeiro, eu estou conseguindo levar meu trabalho para
fora e se meu trabalho é escolhido no meio de
tantos outros, quer dizer que meu trabalho é bom, é um
respaldo para mim. Penso então que é o caminho
certo, que vale a pena eu continuar investindo. Muitas
vezes a gente desanima com vários problemas que
a gente tem, não é fácil se manter
de arte aqui. Um salão, um prêmio, estas coisas
que acontecem fora do Estado, que dá esse respaldo,
isso reanima, dá um fôlego de novo.
Portal MS: Você acha que já foi reconhecido
dentro da arte?
Aqui no Mato Grosso do Sul, hoje posso dizer que sou um
nome referência de arte contemporânea. Até porque
eu fiquei sabendo na semana passada que caiu uma pergunta
no vestibular da UFMS, na prova específica de artes
visuais, um quadro meu do Habemus Cocam. Na época
que fiz o vestibular, há seis anos atrás
não teve artistas novos e agora eu já sou
uma pergunta da prova. Eu fiquei muito feliz, acho que
isto prova que sou uma referência da arte no Estado.
Para mim isto é muito pouco, quero ser referência
no Brasil.
Portal MS: Mas você já expôs
em outros estados também, até no Amapá?
Fortaleza, Brasília, Minas Gerais, Rio de Janeiro,
Cuiabá, já levei meus trabalhos para vários
estados, a única região que não fui
foi o Sul. O meu objetivo agora é levar meu trabalho
para São Paulo e de lá ir para o resto do
Brasil. Quero passar uma temporada para divulgar mais meu
trabalho, é onde as coisas acontecem. Quero ir
para lá para fazer meu trabalho acontecer em nível
nacional, esse é meu próximo objetivo.
Portal MS: O que você acha que falta
no estado para a arte ser mais reconhecida?
São vários os aspectos. Campo Grande é uma
cidade é pequena, apesar de capital. Como diz um
professor meu de filosofia "Campo Grande é uma fazenda
iluminada", então assim, não dá para
esperar muita coisa daqui. Meu trabalho é arte
contemporânea, então acho que tenho que buscar
caminhos fora, infelizmente. É uma cidade jovem, é provinciana
ainda, tanto que se não fosse eu não teria
sido processado, tudo isto não teria acontecido.
Não é uma metrópole, nem uma cidade
referência no Brasil, então não dá para
esperar muita coisa aqui. Eu já cheguei aonde
dava para chegar aqui, para mim é muito pouco. Quero
ir para onde tenho mais chance.
Portal MS: Você acha que esta fase
que está vai permanecer, ou é uma fase
que veio por causa da sua idade, por causa do meio que
está agora e vai acabar mudando depois?
Isto é uma pergunta muito complicada que nem eu
posso responder. Eu creio que meu trabalho nunca vai deixar
de ser provocativo, nunca vai deixar de tratar de questões
que falem da nossa sociedade. Sempre eu vou ter um trabalho
que fale do nosso tempo, com questionamento. Eu não
dou respostas, eu faço perguntas. Em termos de estética,
tema, isto com certeza vai mudar. Eu hoje já experimento
muitos suportes, faço trabalho com latinhas, com
pregos, com tecidos, bordado, pintura em tela, desenho.
Eu experimento muito e isto só tende a aumentar
cada dia mais.
Portal MS: Além de querer ir para
São Paulo, qual plano mais você tem?
Tem a exposição que vou participar em Fortaleza.
E pretendo fazer mais uma exposição aqui,
talvez a última, por enquanto, que vai ser dia 13
de agosto no Centro Cultural José Otavio Guizzo. É uma
séria nova, completamente diferente do que eu já fiz,
posso dizer que é uma continuação
dos estandartes, mas feitas com objetos construídos
de madeira, bordado e vidro.
Portal MS: Você consegue sobreviver de arte
no Mato Grosso do Sul?
É sobreviver mesmo, a gente não vive. Além
do meu trabalho de arte, que vendo quadro, eu dou aula
de arte, que não deixa de ser arte, em uma escola
no fundamental e dou aulas particulares de desenho e pintura
aos sábados.
Entrevistado por Letícia Reynaldes Dias
www.portalms.com.br /
julho de 2008