Evandro Prado: a vitalidade da pintura
Esse texto pretende salientar alguns aspectos
observados na série de pinturas Habemos Cocam, de Evandro
Prado, levando em conta as percepções evidentes
ao se avaliar a produção de qualquer jovem artista
que inicia a construção de uma trajetória;
momento esse que a crítica de arte Aracy Amaral define
como “a primeira idade”.
Tenho acompanhado atentamente o desenrolar
da obra de Evandro Prado, avaliando cada passo, cada conquista
e o gradativo amadurecimento de uma produção que
revela um artista inquieto em suas pesquisas e curioso nas investigações.
Nesse princípio de percurso, Evandro
apresenta um discurso consistente no desenvolvimento dos trabalhos,
tornando claro que a compreensão dos conceitos que sustentam
a concepção das séries - assuntos que o
artista é capaz de comentar com bastante desenvoltura
- é o fio condutor das leituras possíveis dos
temas abordados tanto nas pinturas quanto nos objetos e instalações.
Na série Habemos Cocam há uma
interessante relação entre conceito e plasticidade.
O conjunto de pinturas, que recebe um tratamento de representação
realista, assume a visualidade de comunicação
da linguagem publicitária, onde as formas são
pensadas estrategicamente para atrair a nossa atenção.
A marca Coca-Cola, que para o artista é um dos símbolos
do consumismo globalizado, surge como elemento que dá
unidade à obra, fazendo uso de maneira irônica
das variações desenvolvidas pela marca.
A crítica ao modo de produção
capitalista, onde a propaganda é ferramenta fundamental
para a venda e o consumo em massa de produtos, é uma
das questões importantes presentes na série. Para
o artista “o capitalismo é inversão de valores,
o mundo colorido, alegre e brilhante que ele vende, na verdade
não existe”. Nesse caso, o contraponto fica por
conta das referências ao sistema político econômico
cubano onde a propaganda tem efeito contrário: lá
ela tenta inibir o consumo. Evandro é contundente ao
comentar que para Fidel Castro “a publicidade comercial
semeia sonhos, ilusões e o desejo de consumo impossível”.
Isso ajuda a entender as relações
apresentadas na pintura que retrata a imagem de Fidel com a
frase Cuba Libre no promueve el consumismo. Assim como numa
tela de forma circular que imita os painéis luminosos
da marca, onde a silhueta da garrafa de coca cola é substituída
pela silhueta do rosto de Che Guevara, ilustrando outra frase
citada pelo jovem artista: “Che é a coca-cola do
comunismo”. Então, podemos perceber que no mundo
globalizado os significados perdem os verdadeiros sentidos,
sendo transformados em produtos de uma moda banal.
Seu repertório visual é composto
ainda por imagens sacras que se relacionam inusitadamente com
o esse incontestável símbolo de consumo de massa.
Faz menção ao que Frei Betto chama de “religião
de consumo”, outro conceito que sustenta as idéias
abordadas na série. Aqui ícones católicos
se fundem com a marca Coca-Cola, criando situações
que passam pela diversão e pelo estranhamento. Essas
marcas constituem uma nova religião?
A pintura Habemus Cocam, que dá nome
à série, retrata uma cena do funeral do Papa João
Paulo II que aparece com uma garrafa de coca-cola nas mãos.
Como entender a ousada ligação aqui proposta?
E se ao final do ritual de eleição de um novo
Papa o Vaticano proclama Habemos Papam, Evandro anuncia e critica
um capitalismo que corrompe, que a tudo envolve e controla.
Mostra que a religião não foge a tudo isso e ressalta
a igreja católica como um dos grandes símbolos
do poder, com alcance em todas as áreas do conhecimento.
Em algumas pinturas temos uma ousada reinvenção
de valores, como em “Sagrada Coca-Cola”, onde a
lata de refrigerante toma o lugar do coração sagrado,
aparecendo da mesma forma em “Sagrada Coca-Cola de Jesus”
e “Sagrada Coca-Cola de Maria”. Em “Nossa
Senhora Coca-Cola” uma garrafa é coberta com o
mesmo manto azul da santa cristã. Um sacrilégio?
Uma heresia? Não, apenas possibilidades estéticas
de um novo campo imagético.
Assim, continua buscando interlocução
com obras e artistas diversos, como na reprodução
de detalhes da pintura de Michelangelo, onde o Cristo da cena
do Juízo final aparece aqui repudiando esse consumismo
desenfreado; embora a contradição apareça
numa apropriação de Salvador Dalí, para
recriar um “Cristo Cola”. E em Picasso, busca no
dramatismo das figuras da obra Guernica, um contraste para as
frases de otimismo impressas nas embalagens dos refrigerantes:
“viva o que é bom”, “mais importante
que a beleza é o conteúdo”.
Dessa forma Evandro Prado vai externando suas
idéias e inquietações. Faz uso da arte
para subverter aquilo que consideramos como “politicamente
correto”. Um jovem artista que, com uma obra efervescente,
plena de vitalidade, procura sempre em seu caminho mais questionar
do que dar respostas.
Rafael Maldonado
Curador do Museu de Arte Contemporânea de MS
Outubro 2005