O novo fôlego na arte contemporânea
sul-mato-grossense
MARCO - Temporada de Exposições 2006
As quatro mostras individuais que abrem a Temporada
de Exposições 2006 do MARCO – Museu de Arte
Contemporânea de MS - representam o que vou definir como
“ensaios e processos de investigação”
na a busca de soluções e perspectivas para a arte
sul-mato-grossense. Habemus Cocam, de Evandro Prado; A vida
não é filme, de Priscilla Paula Pessoa; Últimas
Pinturas, de Ovini Rosmarinus trazem discussões através
da linguagem da pintura, enquanto que A grande outra cidade,
de Alex Maciel, tem a fotografia como meio de expressão.
Devido à ausência de uma consistente
articulação do pensamento contemporâneo
na produção artística no estado, bem poucos
são os esforços lançados na tentativa de
conseguir um certo desprendimento da “estagnação
criativa” aqui instalada, e que, de certa forma, vem influenciando
negativamente o que é produzido. Isso porque, devido
à falta de informação e pesquisa, alguns
artistas promovem o seu distanciamento das abordagens que a
arte propõe na atualidade.
A arte contemporânea permite perceber
que todos os caminhos são possíveis quando os
conceitos, embutidos na obra, dialogam coerentemente com os
recursos utilizados pelos artistas na construção
de seus discursos estéticos. “Ser um artista contemporâneo”
implica um comprometimento com questões que transcendem
o simples ato criativo. Significa ter atitude e pensamento em
sintonia com as mutações da própria arte
e do mundo.
E é na real situação de
caos e transformação desse mundo em que vivemos,
que o artista deve buscar encontrar suas respostas e elementos
para construir uma obra em sintonia com o tempo presente.
Elementos triviais da vida cotidiana ou assuntos
com teor político e social tornaram-se ferramentas imprescindíveis
na construção de poéticas universais, assim
como percebê-los no contexto das obras é de fundamental
importância para o entendimento dos repertórios
da arte. Mas, será que estamos mesmo preparados para
o que nos é posto como “novo”? Para o que
classificamos como a “arte dos nossos dias”?
Talvez o elemento surpresa contido na ação
contemporânea seja o ponto de partida para que possamos
dar início a um processo de adaptação do
nosso “gosto” para arte, de uma certa “abertura”
para o inusitado, do enfrentamento e do entendimento daquilo
que nos provoca.
A partir dessas discussões, essas quatro
exposições apresentam um pouco desses elementos
que compõem a cena contemporânea da arte local,
cada uma na sua linguagem e especificidade, tratando de assuntos
diversos que se entrelaçam, na tentativa de redirecionar
os rumos das artes plásticas em Mato Grosso do Sul.
O principal mote que aproxima a obra de Evandro
Prado, Priscilla Paula Pessoa, Alex Maciel e Ovini é
a idéia e a vontade de mudar as coisas do seu lugar estático,
ou seja, em suas investigações eles propõem
dar a essas coisas uma nova carga de significação,
um novo status. Uma situação que faz referência
à atitude da pop art dos anos 60.
O que esses artistas tratam - especificamente
Evandro, Priscilla e Alex - dizem respeito à transformação
de acontecimentos triviais, oferecendo assim novas maneiras
de leitura e significados. Dessa forma eles procuram questionar
o próprio valor da obra de arte, reinterpretando conceitos
e se aproximando do que o filósofo e crítico de
arte norte-americano Arthur Danto chamaria de “A transfiguração
do lugar-comum”.
Assim, esses três jovens artistas correspondem
ao novo fôlego na arte sul-mato-grossense, sinalizando
que nesse interessante início de percurso seguem os mesmos
caminhos inovadores que Ovini (1968-2004) também trilhou,
de maneira instigante, com uma obra repleta de transgressão
e atitude.
Evandro Prado, o principal representante da
nova geração de artistas sul-mato-grossenses,
apresenta na série de pinturas Habemus Cocam uma interessante
relação entre as várias situações
de poder do mundo globalizado. O conjunto de pinturas tratado
de forma bastante realista imita a visualidade de comunicação
da linguagem publicitária, um recurso adotado para reelaborar
novas concepções formais através de procedimentos
intertextuais.
A marca Coca-Cola, que para o artista representa
a força do consumismo globalizado, surge como elemento
que dá unidade às suas séries, fazendo
variações da marca tradicional e seus anúncios
de publicidade, relacionando-os com conhecidos personagens políticos
e religiosos. Também faz interlocução com
a história da arte na representação de
detalhes de obras de artistas como Michelangelo, Dali e Picasso.
Na série sobre a obra Guernica, de Picasso,
o paradoxo fica por conta das cenas de caráter dramático
que se contrapõem com os bordões de otimismo inscritos
nas embalagens dos refrigerantes. A monocromia que cria toda
a tensão na pintura de Picasso é então
interrompida por uma vibrante cor vermelha que age como fundo
da obra. Um contínuo exercício da contradição
sempre presente na obra de Evandro.
Outro aspecto nesse conjunto de pinturas é
a delicada relação entre ideologias políticas
e econômicas. O confronto direto entre comunismo e capitalismo
fica explícito nas pinturas que retratam Fidel Castro
e Che Guevara com inscrições Cuba Libre, desenhadas
da mesma maneira da marca Coca-Cola.
Às vezes suas imagens são capazes
de causar certo estranhamento devido à irreverência
de sua criatividade. A pintura Habemus Cocam, que dá
nome à exposição, retrata uma cena da cerimônia
do funeral do Papa João Paulo II, que tem nas mãos
uma tradicional garrafa de coca cola. E na pintura Experimente
o novo podemos ver a silhueta do Papa Bento XVI, representado
através de tonalidades cinzas que imitam a cor prateada
da versão light do refrigerante. Como entender a inusitada
ligação apresentada nessas obras?
Aí está o interesse na obra de
Evandro Prado. Podemos obter inúmeras respostas num vasto
campo de significação que nos convida à
subversão daquilo que consideramos como “politicamente
correto”.
Priscilla Paula Pessoa mostra em sua série
de pinturas “A vida não é filme” uma
relação entre campos artísticos que se
aproximam pelas inúmeras possibilidades de soluções
estéticas. Aqui a pintura dialoga com o cinema resgatando
a comunicação visual dos cartazes de antigos filmes,
adaptando-os aos novos interesses da artista.
Na reprodução das cenas desses
cartazes, Priscilla insere novos valores transformando as imagens
originais. Como por exemplo, no cartaz do filme Gilda, há
a representação de uma suposta Rita Haywort “gorda”
fora dos padrões de beleza e sensualidade. Ou também
no cartaz do filme O Rei e eu onde se vê uma trivial dona
de casa (seria Débora Kerr?) servindo cerveja e aperitivo
ao marido (seria Yul Brynner?) que provavelmente assiste a uma
partida de futebol pela televisão. Também é
divertido ver a respeito do filme Easy Rider a imagem de dois
entregadores de pizza com suas motos e capacetes, bem diferente
da versão original na interpretação de
Peter Fonda e Dennis Hopper. E podemos achar estranho ver a
figura de dois travestis ocupando o lugar das atrizes Marilyn
Monroe e Jane Russel, no filme Os homens preferem as loiras.
São ironias que justificam a bem humorada
reflexão de Priscilla sobre a expectativa (ou ilusão)
que as pessoas mantém de poder viver, um dia, as fantasias
e os sonhos contidos nos filmes. Dessa forma, nos divertimos
com as diferentes possibilidades da artista para personagens,
cenas e histórias que ficaram eternizadas universalmente
através do cinema.
Alex Maciel, através da manipulação
eletrônica de suas fotografias, cria um novo campo visual
onde jogos de combinação de imagens são
experimentados na organização das idéias
do artista.
Na série de fotografias “A grande
outra cidade”, título da exposição,
Alex apresenta registros urbanos em situações
irreais, quase que beirando o absurdo. São cenas reinventadas
inicialmente a partir da paisagem arquitetônica de Campo
Grande, e, após o acréscimo de outros elementos,
podemos perceber concepções intrigantes na relação
entre as formas representadas.
Em alguns momentos as imagens ficam fora de
foco, completamente embaçadas, dificultando a visualização
do que está representado e causando certa vertigem. Como
a sensação de um estado de sonolência onde
não conseguimos distinguir a autenticidade das coisas,
uma espécie de experiência onírica.
As imagens são na sua maioria em branco
e preto, o que ajuda a dar um clima misterioso às cenas.
Em alguns momentos a cor surge para realçar alguns elementos,
contudo, as tonalidades baixas e sem muita vibração
não interferem no “clima surreal” das obras.
Quase como uma indagação se nossos sonhos são
ou não coloridos.
Também é interessante notar a
transposição de cenas conhecidas para lugares
inusitados, como no caso da obra onde o Cristo Redentor aparece
em cima de um prédio em construção. Ou
então, podemos questionar a veracidade da cena na qual
uma mulher aparece boiando, morta, no lago de um parque que
compõe a paisagem bucólica da cidade. Provavelmente
uma “Ofélia” dos tempos modernos.
A “grande outra cidade” de Alex
Maciel é uma cidade de poucas verdades, onde confundir
também é permitido. Um lugar de ambigüidades
que remete a Lacan: “digo sempre a verdade: não
toda, porque dizê-la toda não se consegue. Dizê-la
toda é impossível materialmente: faltam as palavras”.
Para a verdade de Alex as imagens soam como mentiras.
Ovini Rosmarinus (Osmar Silva da Cunha) foi
o mais irreverente artista sul-mato-grossense. Com atitude despojada,
Ovini causava estranhamento por onde passava. Às vezes,
usava óculos sem as lentes dizendo que era apenas porque
achava que a armação lhe “caía bem”,
embora não tivesse nenhum problema de visão. Sempre
tinha um discurso coerente para apresentar suas convicções
artísticas e para justificar toda sua ousadia.
Seu trabalho sempre foi o reflexo de sua vida.
As dificuldades nunca o impossibilitaram produzir, aliás,
foram elas que o fizeram buscar novas soluções
para desenvolver a sua arte. Pintava sobre papelão, reaproveitava
sucatas, costurava tecidos de guarda-chuvas velhos para confeccionar
suas “telas” e conseguia surpreender toda vez que
apresentava uma nova série de trabalhos.
Suas últimas pinturas, reunidas nesta
exposição, mostram um artista maduro e mais consciente
no fazer. O geometrismo aparece de maneira diluída em
algumas obras. As cores são sóbrias, embora, em
alguns momentos, até podemos perceber certa alegria em
seu ato de colorir. Nessas pinturas há a recorrência
de linhas retas e curvas formando o corpo da obra, numa estrutura
onde a repetição cria contrapontos para nos passar
uma agradável noção de ritmo e equilíbrio.
Ovini abusava de forma expressiva da sua liberdade
criativa, era um artista descomprometido, livre, sem medos e
sem amarras. Sua obra é o retrato disso, ela foi a grande
resposta de um artista que ousou, que experimentou e buscou
na superação das dificuldades a motivação
para produzir uma arte consistente.
Rafael Maldonado
Curador do Museu de Arte Contemporânea de MS
abril de 2006