Repercussão da exposição
"Habemus cocam"
Evandro Prado:
Em primeiro lugar, envio-lhe minha total solidariedade
tendo em vista a repercussão negativa da igreja e câmara
de campo grande em relação à sua exposição.
Parece mesmo que estamos vivendo em época
de estranho obscurantismo (era de fundamentalismo cristão
de bush e fundamentalismo islamico), que com espanto vejo abordar
o brasil, país conhecido por sua liberalidade sob esse
aspecto.
Essas autoridades locais (tanto municipais
como religiosas) não parecem conhecer a necessidade de
livre expressão, pois nem na época do regime militar
ocorriam fatos como esse que v. relata ter ocorrido ai em campo
grande.
Aliás, é igualmente um desconhecimento
mínimo de historia da arte do século XX. afinal,
o dadaismo, na segunda década do século passado,
já fazia zombarias aos costumes conservadores, salvador
dali pintou o cristo na cruz, e no movimento "pop"
a partir dos anos 60, no brasil como no mundo mesmo imagens
religiosas foram apropriadas pelos artistas.
Aliás, o artista nelson leirner tem
talvez o seu melhor trabalho focalizando o cantor roberto carlos
(nos anos 60) rodeado de imagens de santos tradicionais do brasil
(como s.benedito, n.s.aparecida, santo antonio entre outros)
e essa instalação dele, hoje antologica,um classico
da arte "pop" no brasil , é parte do acervo
do masp (museu de arte de são paulo). leon ferrari na
argentina, igualmente, discute a igreja conservadora também
em instalações com imagens sacras, e na venezuela
artistas contemporaneos fizeram do sagrado coração
de jesus tema de sua obra.
E o artista não pode então lançar
mão de temática religiosa para suas obras? se
formos pensar assim, mesmo ao nivel de centro-oeste, daqui a
pouco não poderiamos mais aceitar que o fizesse o magnifico
poteiro, que se baseia totalmente na tematica religiosa ! e
falando em erotismo, não deve esquecer também
essa região a contribuição de adir sodré,
que durante muitos anos expôs senso de humor aliado à
sátira erotica!
Logo, essa grita com seu trabalho só
pode proceder de quem não está a par da licença
poética de que se vale um artista contemporaneo para
criar. E vejo muito mais seu trabalho vinculado à crítica
social e política, valendo-se para isso de imagens da
religiosidade popular.
Aracy Amaral
Escritora, Pesquisadora e Crítica de Arte.
curadora-coordenadora do rumos Itaú Cultural 2005-2006
maio/2006