Arte, fé e refrigerantes...
A relação entre a arte e as instituições
sociais ou culturais nunca foi tranqüila. As expressões
artísticas que foram e são incorporadas à
cultura, no momento de seu advento, geralmente, criticaram ou
contestaram os valores culturais vigentes e, assim, renovaram
todo processo cultural. A cultura avança nas contradições
e se estabelece como memória de acordos e conflitos.
Do mesmo modo, a relação entre
a sociedade e seus artistas é conflituosa. Mas, ao mesmo
tempo, é sustentada pela admiração que
os homens comuns nutrem por aqueles outros que questionam os
dogmas vigentes. A própria vivência humana de Jesus
foi marcada por questionamentos aos preceitos de seu tempo,
inclusive e principalmente os religiosos.
No contexto da cultura ocidental, a Igreja
Católica muito se beneficiou dos valores das artes, patrocinando
e incorporando discursos artísticos aos seus ritos e
expressões mais diversas. Tomem-se os casos das obras
de Michelangelo na Capela Sistina ou o de A Última Ceia
pintada por Leonardo Da Vinci. Todavia, a relação
desses artistas com a Igreja foi muito conflituosa e continua
sendo.
O Papa Júlio II, que encomendou as obras
da Capela Sistina a Michelangelo, enfrentou diversas reações
por parte do clero e dos devotos, que contestavam as imagens
realizadas. Posteriormente, entretanto, isso deu lugar à
admiração que se estendeu a toda Igreja Católica
e a todos nós. A Última Ceia de Da Vinci, que
desde o início foi considerada uma das obras mais caras
à Igreja, serve hoje de ilustração para
as teses do livro Código Da Vinci, que se contrapõem
ao discurso e às tradições católicas.
Recentemente, a fotógrafa sueca Elisabeth
Ohlson recompôs a cena da Última Ceia, na qual
os discípulos de Cristo são drag queens em plena
regalia. Sua obra causou enorme controvérsia na Suécia:
um dos lugares onde foi mostrada, foi a Catedral Uppsala, a
primeira igreja da nação. Ohlson faz parte de
uma tendência dentro da arte que faz uso deliberado de
incongruências para gerar uma obra polêmica.
A legislação vigente em âmbito
internacional admite o direito comercial de propriedade sobre
símbolos que são amplamente disseminados para
captar adesões ideológicas ou comerciais. Uma
vez que esses símbolos circulam na cultura, eles também
são utilizados nos discursos culturais, que manifestam
sua adesão ou contestação ao que os símbolos
representam.
Estamos imersos numa cultura de mercado, em
que tudo é transformado em mercadoria, inclusive os símbolos.
Nesse sentido, os símbolos religiosos, assim como os
sexuais, manifestam um alto valor por suas relações
cruciais com a humanidade.
As igrejas de modo geral estão inseridas
na cultura de mercado. A Igreja Católica, inclusive,
muito contribuiu para o desenvolvimento das estratégias
comerciais em torno dos bens simbólicos. Atualmente,
os mesmos recursos utilizados para vender refrigerantes são
utilizados para propagar crenças e ideologias políticas,
religiosas ou comerciais.
Esse é um fenômeno evidente para
qualquer cidadão que convive com um adesivo que representa
a imagem de Nossa Senhora circundada por um Terço ao
lado de um outro adesivo dizendo que devemos votar no Fernandinho
Beira Mar ou beber Coca-Cola.
É esse contexto que sustenta nossa suspeita
de que é demagógica a indignação
de representantes políticos e devotos religiosos diante
das obras realizadas pelo jovem artista e acadêmico do
curso de Artes Visuais, Evandro Prado, que estão expostas
no Museu de Arte Contemporânea de MS (MARCO).
Essas obras não fazem mais do que sobrepor
imagens que já estão justapostas em todos os lugares
da sociedade, confirmando em tom de denúncia que todos
os símbolos foram tomados pela cultura de consumo e transformados
em mercadoria.
As instituições políticas
e religiosas deveriam agradecer o alerta, uma vez que todos
nós já devotamos muita fé em entidades
como Duda Mendonça e outros "santos" de plantão.
Confessamos que as obras são belas e
chocantes, mas não são mentirosas. Mesmo que fossem,
isso não vem ao caso, porque a fantasia e a mentira fazem
parte da cultura e são plenamente confessas na arte.
Infelizmente, ao contrário da arte, nas instâncias
políticas e religiosas, a fantasia e a mentira são
muitas vezes encobertas e acobertadas.
Nós, que atuamos no campo das artes,
agradecemos a polêmica, porque essa deu visibilidade ao
nosso trabalho. Neste momento, nossos símbolos estão
sendo "vendidos" na mídia como mercadoria de
grande valor.
Além disso, quantos cidadãos
desta capital passaram a saber da existência de nosso
Museu de Arte (MARCO) graças ao conflito. Esperamos que
todos queiram ir ao museu ver de perto o motivo da polêmica
e, também, deixarem-se encantar com a beleza do lugar
e de todas as obras, polêmicas ou não, que estão
expostas no seu interior.
Defendemos a liberdade, principalmente a liberdade
de expressão. Por isso, defendemos o direito, de quem
quer que seja, de contestar o que dizemos ou fazemos. Todavia,
não podemos admitir qualquer tipo de censura às
artes, do mesmo modo que defendemos a liberdade política
e religiosa. Seria muito triste e vergonhoso retornarmos ao
tempo em que a violência suprimia a liberdade, retirando
políticos das tribunas, devotos das igrejas e obras dos
museus e das galerias.
Eluiza Bortolotto Ghizzi e Richard Perassi,
Professores da UFMS (com o apoio dos Professores do Departamento
de Comunicação e Artes da UFMS)
12 de Junho de 2006 - Jornal Correio do Estado