Fanatismo a serviço da arte?!
Estranho título, afinal, o mais provável
é a relação inversa. O artista campo-grandense
Evandro Prado, apesar de talentoso era apenas um jovem estudante
desconhecido até um mês atrás. Autor de
obras que partem das reflexões de Frei Beto, sobre a
religião do consumo, mostrou como um refrigerante é
alçado a símbolo de adoração. Tudo
teria passado em brancas nuvens e ele não teria ganho
seus quinze minutos de fama, se não fosse a reação
de um vereador da capital (procurando o que fazer, dada a conhecida
ociosidade do parlamento municipal de Campo Grande) que propagandeou
violentamente a exposição das obras, estimulando
a intolerância de beatos e dirigentes religiosos. A ação
do vereador foi claramente oportunista, mas por outro lado,
é preciso reconhecer que a arte tem uma incrível
capacidade de provocar reações nos seres humanos.
Previsivelmente, sempre acontece algo imprevisto.
Cristina Costa, Doutora em Ciências Sociais pela Faculdade
de Filosofia de São Paulo, apresenta uma explicação
interessante ao defini-la em seu livro Questões de Arte:
“Exige eco e comunicação, exige diálogo
e controvérsia”. Realmente, faz sentido. O que
seria da Semana de Arte Moderna, na cosmopolita São Paulo,
de 1922, se não fosse a controvérsia? O evento
poderia ter passado em brancas nuvens.
Vejamos alguns outros exemplos. O consagrado
pintor francês Henri Matisse. No início, o de sempre,
um jovem talentoso e desconhecido. Estudou os grandes mestres,
experimentou diversas escolas, entre elas o pontilhismo e acabou
inaugurando, a própria revelia, um novo estilo, o fauvismo.
O nome foi dado por um crítico que comparou Matisse e
outros artistas a “fauves”, feras em francês,
de forma nada elogiosa. Tudo isto, devido ao uso intenso de
cores e matizes contrastantes. Pintou um quadro de sua esposa,
A Senhora Matisse (A risca verde) e provocou escândalo.
Pronto, as regras estavam quebradas.
O Evandro, a exemplo dos casos mencionados
também quebrou regras e ganhou notoriedade, embora afirme
que não fosse esta a sua intenção. É
no enfrentamento da adversidade que se cresce. O que é
inaceitável é a prática da intolerância,
principalmente oriunda de dirigentes políticos e religiosos.
Quem assiste às sessões da Câmara campo-grandense
sabe o quanto a pauta é esvaziada, o quanto a discussão
é empobrecida. Para sorte dos vereadores a transmissão
não chega à todos os lares, pois as sessões
são transmitidas por canal de televisão fechado.
Eles perdem um tempo em proposições como “cria
o dia disso, cria o dia daquilo...” e a cidade, que está
entre as maiores do país (é a vigésima
terceira em população) transborda em problemas
sérios, que vão do trânsito mal planejado
a uma rodoviária que causa vergonha.
Cristina Costa registrou em seu livro também,
que o pintor francês surrealista René Magritte,
pintou uma mulher em cor verde, o que acabou por despertar o
comentário de que não existe mulher verde. Magritte
respondeu que aquilo não era uma mulher e sim uma pintura.
Para demonstrar a relação entre arte e realidade,
ele pintou um cachimbo e escreveu “Ceci n’est pas
une pipe”, ou seja, “isto não é um
cachimbo”.
A história da humanidade registra incontáveis
situações em que a arte foi empregada à
serviço do poder político, do poder econômico
e religioso. Mas ela também pode fazer o caminho inverso
e não há intolerância que consiga detê-la.
Almir Farias da Cunha e Neiva Valadares
Servidor público/Professora de Artes
22 de Junho de 2006 - Jornal "O Estado"