Habemus Evandro
Evandro Prado, 20 anos, nasceu no bairro São
Francisco em Campo Grande-MS e mora, ainda, na mesma casa, mas
nunca esteve na mesma escola. Estudou na Escola Estadual Nicolau
Fragelli, na Escola Estadual São Francisco, na Escola
Estadual 26 de Agosto, na Escola Estadual Riachuelo e, por fim,
no Latino Americano. Nunca foi reprovado, mas se não
gostava da escola, mudava logo. Nunca pensava em ser artista,
mas desenhava sempre e somente nos picos baixos da preguiça.
Terminou essa fase de sua formação sem ler coisa
que lembre, mas rabiscando, exercendo sua vontade e afiando
a veia crítica.
Depois veio a universidade. Nas lembranças
de seu despertar para a arte, menciona o incentivo de Rafael
Maldonado, seu professor de desenho, e de Humberto Espíndola.
Evandro está no último ano do Curso de Artes Visuais
da UFMS. Diferentemente de muitos de seus colegas, orientados
pelas idéias recebidas e generalizantes, ele gosta de
política. Diferentemente de muito pintorzinho vaidoso,
arrogante e inapentente à leitura, ele lê muito
sobre arte, comprando seus próprios livros ainda que
com dificuldades. E não é nenhum carola macambúzio.
Se fosse, o bispo não o teria processado. Como muito
outros jovens de sua idade, gosta de fazer musculação
e morre por pastel, pizza e sorvete.
Os artistas que influenciaram suas buscas e
seu fazer artístico foram dois: o brasileiro Nelson Leirner
e o argentino Léon Ferrari que, para ele, tem um trabalho
“mais engajado e de crítica à sociedade”.
Evandro gosta da Arte Pop brasileira. Segundo ele, mais “politizada
e contundente do que a americana, mais light”.
Evandro está, pois, no mau caminho,
segundo o bisco Dom Vitorio Pavanello, o vereador Paulo Siufi,
o deputado Sérgio Assis, o grupo da Defesa Católica
e outras almas vigilantes. Por isso cometeu o pecado mortal,
noticiado nos jornais da capital e na Folha de São Paulo
do dia 24 de junho, com a exposição intitulada
“Habemus cocam”, aberta ao público este ano
pelo Museu de Arte Contemporânea – MARCO. Nela o
artista apresentou uma série de obras que deveriam encantar
os seus detratores, principalmente o bispo, pois nelas empenha-se
em fazer uma crítica à sociedade de consumo que,
visando apenas o lucro, banaliza tudo, as obras de arte, a fé
e as utopias políticas, elevando as guloseimas à
categoria do sagrado, como é ocaso da coca-cola. E faz
isso com um certo humor e ironizando até a si mesmo,
na medida em que, como disse, é um dos bilhões
de consumidores do sagrado líquido americano.
O que o jovem artista empenhou-se em construir
em suas obras foi uma enunciação que joga com
discursos os mais variados e os valores que eles comunicam na
vida diária. Tal qual um desses donos de ferro-velho,
que compra de tudo, pensando numa futura utilidade do que vai
amontoando, Evandro foi também guardando na memória
esses discursos, imagens e símbolos para, como o dono
dessas casas de ferro-velho, fabricar novos discursos, colando,
cortando, ajuntando e subvertendo coisas, de maneira crítica.
Um “bricoleur”!
O artista é daqueles que acreditam numa
arte reflexiva, que produz ansiedade, pois o fazer artístico
em que não há esse ingrediente, não pode
ser chamado de arte. É um ponto de vista que pode não
agradar, inclusive, a muitos outros artistas para quem a arte
é apenas forma e ilustração de idéias.
Para Evandro, a arte é em si um modo reflexivo de ação,
um fazer que visa produzir isso mesmo que acabou produzindo:
interrogação, inquietação, ansiedade,
vontade de responder com moeda da mesma natureza – linguagem.
E, nesse terreno, uns se dão bem e contribuem; outros
dão com os burros n’água.
Foi na falta da compreensão disso que
o bispo entrou na justiça com uma Ação
Cautelar contra o artista, pedindo apreensão e destruição
das obras e censura ao museu e, depois, com uma ação
criminal, pedindo a sua condenação por vilipêndio
à imagem sacra. Foi também por falta de saber
ler que alguns políticos tentaram aprovar moção
de repúdio e o cancelamento da exposição.
Isso é mal? Até que não. É bom.
É sinal de que houve reação da sociedade,
de que o objetivo do artista se cumpriu: provocou o surgimento
de palavras e contra-palavras, de apoios e condenações.
É por aí que o campo artístico da capital
pode enriquecer-se cada vez mais, nos debates travados entre
artistas, críticos e público.
E para a gente não cometer grosserias
de censura burra, para não meter os pés pelas
mãos, basta um pouquinho mais de mente aberta e de leitura,
principalmente para religiosos carentes de rebanho e políticos
à mingua de legitimidade e de prestígio. Do contrário,
com esses desejos extemporâneos de censura à porrada,
vão ficar todos ex-comungados, cortados da comunhão
com nosso tempo e nossa gente.
Ainda bem que habemus Evandro. Que surjam outros
que, como ele, não só bebam coca-cola.
J. Genésio Fernandes
Julho de 2006