No que você está pensando
agora?
"o artista deve avançar especificamente para se
perder, e intoxicar-se de atordoantes sintaxes, procurando
por curiosas intersecções de sentidos, estranhos
corredores da história, ecos inesperados, humores desconhecidos,
ou vazios do conhecimento...mas isso exige risco, cheios de
ficções infundadas e arquiteturas sem fim ou
contra-arquiteturas...E no fim, se é que existe um fim,
estarão provavelmente apenas reverberações
sem sentido" .
Robert Smithson
Um grupo de artistas se reúne numa velha casa com muitos
cômodos, dividem o espaço conforme seus interesses,
iniciam um processo de adaptação de suas poéticas
particulares levando em conta agora, as características
arquitetônicas que qualificam o espaço escolhido. É uma
ocupação coletiva. Todos tem o mesmo intervalo
de tempo, alguns meses, cabe a cada qual a quantificação
de investimentos e esforços. À princípio
estão todos sujeitos à uma mesma regra e objetivo
comum: acrescentar o fator de aproveitamento de um espaço
dado à sua própria poética, seu trabalho,
este que vem lentamente sendo elaborado desde o dia em que
cada qual decidiu-se artista.
Essa ocupação surge como fator agregador de uma
pequena comunidade de artistas a serviço da metáfora
de transformar o mundo com sua arte, através da transformação
efetiva de uma pequena parte do mesmo, no caso, essa casa.
O número de artistas surgindo de todas as partes só aumenta,
assim como tem crescido o público espectador para arte.
Considerando a arte ocidental, tal como a entendemos de quinhentos
anos pra cá, pode-se, com segurança, afirmar
que nunca houve um interesse tão grande em arte contemporânea
como hoje em dia. Ansioso em participar e tomar parte dos acontecimentos
ou simplesmente em busca de entretenimento, este público
forma grandes filas nas portas dos museus, bem como nas infinitas
bienais espalhadas pelo mundo.
Interessa observar que tipo de impulso move esses artistas,
quais são seus ideais e em que nível se relacionam
com o mundo. Pensar de forma geral o que pretendem com sua
arte. De que forma escolherão relacionar-se com o desafio
de atuar num circuito artístico, por um lado, um tanto
quanto desencantado pela intensa mercantilização,
onde as relações de compra e venda que se estabelecem
coordenam os anseios tanto de quem compra quanto de quem vende.
Desta forma, criam-se necessidades paralelas que acabam por
promover um forte achatamento das leituras inicialmente pretendidas
pelo artista. O alcance poético da obra ou da ação
do artista tende a sucumbir a simplória valoração
numérica válida para todas as coisas que habitam
a esfera da simples mercadoria.
De outro lado ainda, este mesmo artista terá que lidar
com um circuito repleto de procedimentos burocratizados com
editais e seleções onde, discursos coerentes
sobre a produção surgem sempre acompanhados de
uma boa documentação. Mecanismos através
dos quais criam-se trilhas altamente previsíveis, resultando
aceites e recusas inexoravelmente injustos, geralmente baseados
em critérios de eficiência no preenchimento dos
muitos quesitos exigidos.
Entretenimento, participação, interatividade,
denúncia e engajamento politico, ecologia, ocupação,
ação, representação, mobilização,
residência, no que você está pensando agora?
O que escolher no cardápio dos novos estilos e fazeres
comuns do momento pós-histórico?
Seria saudável duvidar destes, entre outros fazeres
comuns no atual universo da arte. Duvidar de seu real alcance
e potencial, uma vez que se pode perceber um alto grau de padronização
de atitude, uma espécie de uniformização
das manifestações artísticas.
A verdadeira transformação virá, como
sempre, de onde menos se espera. À medida em que o artista
se submete a regras ou busca coerência com o sistema,
ele deixa de investir na liberdade de pensamento e cessam os
progressos na investigação do desconhecido, campo
este, onde efetivamente se situa toda a área de interesse.
Tarefa complexa e ao mesmo tempo estranhamente simples de dar
a conhecer o que antes não se sabia, assim como fizeram
Mondrian, Picasso e Duchamp, entre muitos outros. Agora não
mais necessariamente para trazer o novo, como na modernidade,
mas para continuamente transformar o já conhecido. É um
processo ininterrupto no qual o artista permanece como ferramenta
fundamental na promoção dessa transformação,
criando atalhos, renovando olhares e conceitos. Aí está a
razão, talvez, do brotamento contínuo de artistas
por toda parte, são pessoas a quem interessa criar uma
nova fachada para o mundo, novas possibilidades de compreensão
do real.
Considera-se que a arte opera num campo específico,
promovendo ambiguidade de sentidos através da manipulação
de imagens e da criação de metáforas.
Isto se dá através de uma leitura perpendicular
da realidade que o artista realiza em seus voos. Através
dessa ambiguidade, enxerga-se a possibilidade de reservar à arte
o poder de relativizar valores padronizados, acentuando a ideia
de que ela não tem uma função específica
e concentrando investimentos nas sutilezas da poética
proposta pelo artista.
Leda Catunda
São Paulo /Abril de 2010